sexta-feira, 25 de setembro de 2009

SONHO CO ALEXANDRE BORGES


Eu, decerto, estivera sonhando com uma novela. Nunca havia sonhado antes que fosse mendigo, nenhum desejo pode nos parecer mais distante do que esse o de desejar uma coisa dessas. Não podemos nem sonhar com isto, sonhos são realizações de desejos, mas neste meu sonho eu sou um mendigo. Tal desejo trágico (situações extremamente incomuns), visto que, no sonho, erro por calçadas imundas, vasculhando o lixo como um cão à procura de comida, __ coincide, sobremaneira, com as conexões do dia anterior (pensamentos da vigília). Realmente aconteceu de eu precisar recorrer a um amigo de longas datas, Vladimir, com o fito de pedir dinheiro para comprar remédio. Este meu amigo tem um filho de nome Alexandre, e este episódio aconteceu há três meses, o filho presenciara, de quando em pleno expediente, na padaria [Devo dizer que Vladimir é empresário do ramo de panificação] desci do Grande Circular e fui ter com ele para tratar do reembolso. Eu devia vinte reais a ele e não podia deixar de pagar, uma vez que postulava uma vaga em sua padaria. O empréstimo aconteceu numa manhã de sábado, dirigi-me até a padaria, carregando na mão o currículo, disse que estava precisando de trabalho. O meu amigo descartou a possibilidade de emprego, foi aí que falei no dinheiro para o remédio. Vladimir, quando se dispusera a meter a mão no bolso, fizera-o a fundo perdido, essa “mão aberta” foi uma fachada para se desvencilhar de mim, de ordinário damos um trocado ao flanelinha, um pedaço de pão mofado a quem tem fome, pagamos o pedágio da Ponte que leva á praia do Icaraí, se for preciso entregamos a carteira de cédulas ao primeiro guri que nos aborda de navalha. Vladimir não me fez um empréstimo, mas sim uma “caridade”; somente os que detestam fazem esse tipo de coisa, os pobres vivem da caridade dos ricos que lhes detestam.

Agora me lembrei de um fato bem pertinente envolvendo o Manuel da padaria, natural de Sítios Novos, Caucaia. Manuel é o pai do meu amigo Vladimir. Eu devia ter 12 anos (tinha ido à padaria para comprar pão?) quando uma menininha de vestido puído pediu uma esmola. Como por um instinto divino, seu Manuel da padaria autorizou que a funcionária, dona Luíza de Marilac entregasse um pão à pobre menininha que olhava os pães todos muito compridos com os seus olhinhos muito compridos. Para aquela pobre menininha não importava se o gás acabou, se tem pouco feijão na panela ou se seu pai está desempregado, o que importa são os pães de seu Manuel. Aquela criança descadeirada sabia de cor a etiqueta dos desvalidos, disse Deus lhe pague, e voltara pra casa com a consciência do dever cumprido. Ó pobre menininha, quem me dera comer pão com a mesma vontade como tu comes!

Como já disse, estive sonhando com uma novela. Caminho das Índias tem um personagem que passa por maus bocados, Raul (personagem de Alexandre Borges) vive de bico, catando papel pelas ruas do lugarejo, maltrapilho, come sobras de restaurantes e dorme num cubículo infestado de ratos e outros animais horripilantes. Eu sempre achei o ator Alexandre Borges muito charmoso. Em minha juventude quase que ia para o teatro, recebi convite, mas sempre me achei desengonçado, corcunda e muito tímido. Não foi à toa que escrevi em itálico o nome do filho de meu amigo Vladimir. É o elemento que faz a conexão com a experiência da vigília (Alexandre, sabia que eu estava a braços com aperturas financeiras), e foi isto que entrou na construção do sonho de mendicância. No sonho, eu me substituí pelo personagem Raul de Alexandre Borges devido ao meu sobrenome, Alexandre. Mas o que determinou este sonho foi o fato de Vladimir recusar por duas vezes o meu currículo. Eu não queria esmola, queria um emprego, tanto que o reembolsei em menos de dez dias. Vladimir ficara desapontado com a minha honestidade. Eu não sou velhaco, com que então se recusara a receber a minha ficha? O que não faltam são bons motivos para me admitir, (1) tenho uma prima decana que mora defronte da casa dele, (2) sou casado com Rosangela, uma ex-cunhada dele, e, (3) sou um homem de Letras, o que ele mesmo pôde verificar ao acessar meu blogger. Quando despertamos, o que nós reproduzimos é apenas uma substituição dos desejos latentes, isto acontece pelos mecanismos do sonho, condensação, deslocamento, sobredeterminação, substituição e transformação, tudo isso impelido pela censura onírica. Quando ouvimos um sonho trágico, somos exortados a bater na madeira e dizer não podemos nem sonhar com isto. Quando aprendemos a analisar os pensamentos do sonho, compreendemos que são as experiências da vigília que instigam a sua construção através das cadeias associativas, são os pensamentos pré-conscientes que, por associação (e aí temos o exemplo do Alexandre, filho do Vladimir e de minha fracassada tentativa de ser um ator global) servem de gancho para que os desejo recalcados (desejo de ser o Alexandre Borges) tenham acesso à consciência mediante pensamentos alucinados, ou seja, transformação de pensamentos em imagens pictóricas. O desejo realizado neste meu sonho não é uma revolta contra Vladimir, que abusou do poder e me humilhou, agindo incivilizadamente ao devolver o currículo, mas sim o desejo de ser um ator global, nem que para isto tivesse de representar o papel de mendigo.

Helder Alexandre Ferreira.

Poeta e filósofo da Mente

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