Um desejo consciente só consegue tornar-se instigador do sonho, quando logra despertar um desejo inconsciente do mesmo teor e dele obter reforço. O inconsciente é a verdadeira realidade psíquica; em sua natureza mais íntima, ele nos é tão desconhecido quanto à realidade do mundo externo, e é apresentado de forma tão incompleta pelos dados da consciência quanto o mundo externo pelas comunicações de nossos órgãos sensoriais. Segundo indicações provenientes da psicanálise das neuroses, os desejos inconscientes estão sempre em estado de alerta, prontos a qualquer momento para buscarem um meio de se expressarem sempre que surge a oportunidade de se aliarem a um impulso do consciente e transferirem sua grande intensidade para a intensidade menor deste último. Os desejos inconscientes partilham esse caráter de indestrutibilidade com todos os outros atos mentais verdadeiramente inconscientes, isto é, que pertencem apenas ao sistema inconsciente. São vias estabelecidas de uma vez por todas, que jamais caem em desuso e que, sempre que uma excitação inconsciente volta a catexizá-los, estão prontos a levar o processo excitatório à descarga. Para usar um símile, eles só são possíveis de aniquilamento no mesmo sentido que os fantasmas da Odisséia, em seu mundo subterrâneo, despertavam assim que provavam sangue. Os processos inconscientes que dependem do sistema pré-consciente são destrutíveis num sentido muito diferente. A psicoterapia das neuroses baseia-se nessa distinção.
A teoria dos sonhos é o nome que se dá a qualquer investigação sobre os sonhos que procure explicar o maior número possível de suas características observadas de um ponto de vista particular. Os sonhos podem ser divididos em três teorias: (1) Toda a atividade psíquica continua no sonho. A mente não dorme, seu aparelho continua intacto; como se enquadra nas condições do estado de sono, que diferem da vida de vigília, seu funcionamento normal produz resultados diferentes durante o sono; (2) os sonhos implicam o rebaixamento da atividade psíquica, um afrouxamento das conexões e um empobrecimento do material acessível; o sono se impõe ao mecanismo mental, e o deixa temporariamente fora de uso. Na primeira teoria, o sonho continua o pensamento de vigília. Isto seria semelhante à paranóia; já a segunda teoria interpreta o sonho em acordo com o modelo da deficiência mental. A teoria dominante, porém, é aquela que diz que apenas um fragmento da atividade psíquica encontra expressão nos sonhos, por ter sido paralisada pelo sono. Toda a inércia do sono chega ao fim nas primeiras horas da manhã, mas apenas gradativamente. Os produtos cerebrais, a fadiga que se acumula na albumina do cérebro diminui gradativamente; uma quantidade deles é decomposta ou eliminada pelo fluxo incessante da corrente sangüínea. Aqui e ali, grupos de células começam a despertar para o estado de vigília, enquanto a fadiga ainda persiste em torno delas. Esses agrupamentos isolados surgem perante a nossa consciência obscurecida, sem os limites impostos por outros setores de cérebro que governam o processo de associação, por isso que as imagens produzidas, que correspondem, em sua maior parte, às impressões materiais do passado mais recente são relacionadas de maneira confusa e irregular. Todo sonho, mesmo desagradável, é uma tentativa para melhor dominar e solucionar experiências traumáticas. Dentro do conceito de neurose de traumática, Freud pretende que o sonho seja a expressão de uma situação traumática reprimida durante a infância e reatualizada por conflitos de sentido semelhante, vividos no tempo presente. Os sonhos representam a dramatização disfarçada e regressiva de conflitos traumáticos reprimidos __ dramatização essa que, num processo similar ao que ocorre nas Neuroses Traumáticas, procura elabora-los, buscando dar-lhes solução. Sonhos são alucinações de conteúdo psíquico conflitivo os quais anteriormente haviam sido reprimidos. O ego adormecido, não podendo nem suprimi-los e nem dominá-los, prefere considerar que estejam ocorrendo no mundo externo e procura disfarçá-los para tornar aceitável sua passagem à consciência. Os sonhos repetem o modelo estabelecido pelo primeiro grande conflito traumático, o trauma do nascimento. E esse processo traumático do nascer repete-se na irrupção dos conteúdos luminosos do sonho em meio às trevas do sono. Adormecido, o indivíduo encontra-se em situação semelhante àquela do feto do dentro do útero; ao sonhar revive sua vinda ao mundo __ momento em que é dado à luz.
Regressão
Repetição
Transferência
Dramatização
Os sonhos são atos psíquicos tão importantes quantos quaisquer outros; sua força propulsora é, na totalidade dos casos, um desejo que busca realizar-se; o ato de não serem reconhecíveis como desejos, bem como suas múltiplas peculiaridades e absurdos, deve-se à influência da censura psíquica a que foram submetidos durante o processo de sua formação; à parte a necessidade de fugir a essa censura, outros fatores que contribuem para sua formação são as exigências de condensação de seu material psíquico, a consideração a sua representabilidade em imagens sensoriais e _ embora não invariavelmente _ à manda de que a fachada do sonho possua racionalidade e inteligibilidade. O sonho é um desejo que busca realizar-se. O estudo do sonho foi uma das fontes que Freud encontrou para a elaboração do conceito de transferência, e diversos analistas têm concebido o sonhar o paradigma da situação analítica. Numa situação analítica temos o sintoma. Se esse sintoma for bem conduzido, o paciente repete a causa dele no próprio analista; o psicólogo agora é mais um objeto para quem o paciente, pelo viés da regressão, transfere seus impulsos sexuais. Começa aqui a psicoterapia, o analista formou uma aliança com o recalcado, e a neurose de transferência propicia o retorno desse recalcado, que é o movimento de pôr para fora (acting Out.) sentimentos e pensamentos expressos no psicodrama, representação teatral de caráter simbólico, e tudo pelo aumento de temperatura da transferência.
Nenhum comentário:
Postar um comentário