O grande escritor, pesquisador, antropólogo, musicista e poeta Mário de Andrade sempre deixou entrelinhas a mágoa que sentia de não ser um poeta fatal. O nosso São João Baptista do modernismo, Manuel Bandeira, que, espirituosamente, dizia haver engolido um piano, mas ter ficado com o teclado à mostra na boca (ele era dentuço), lamentava também que não era prosador, ficara perdido na infância da prosa. Manuel Bandeira, creio, era apaixonado por Machado de Assis, tanto que usa aquela famosa expressão machadiana “Tu que me lês” na confecção de um de seus poemas, igualmente, introduz o protonotário apostólico Cabral, padre Cabral do romance Dom Casmurro em uma de suas maravilhosas poesias.
Sob Eros e Thanatos desobedece ao imperativo categórico que norteia a razão dos escritores, classificando-os de poetas e prosadores. Há escritores e escritores, poetas e poetas. Sempre houve e haverá pessoas que limpam os pés no tapete da Literatura, nunca se desrespeitou tanto esta arte, as livrarias estão apodrecidas, tudo é literatura... Lamentavelmente, as Bibliotecas Públicas estão imiscuindo em seus acervos tantas estupidezes, que dá para pensar, como em alguma ocasião, falou o jornalista Vicente Alencar, de que existe uma estratégia, uma vil manobra sub-reptícia com o propósito de eliminar da comunidade dos humanos qualquer forma de manifestação artística. Os valores da estética, o que é Belo e perfeito, a produção artística, diz Chico Buarque, é o resultado de muito trabalho, a inspiração é apenas uma gota dágua. O poeta, o escritor trabalha o Significante (as palavras) assim como o carpinteiro (o artífice) trabalha a madeira; o escritor mexe com o incognoscível (o sentido do humano). Essa necessidade de dar corpo às emoções através de um conto ou de um soneto faz parte da sina do ser humano. O ser que fala, ele tem uma demanda (exigência), a de ser escutado, lido, sua mensagem precisa ser autenticada pelo Outro. O Belo, em sua dimensão estética, só existe a partir do Outro, por isso que o prazer da intersubjetividade, no nível motor que chamamos behaviorista (luta, exibição) converge na beleza que nos atrai para a vida; o conto, o poema, a crônica, a arte literária cumpre uma função que vai do sujeito que fala para o Outro, e essa relação, esse diálogo é impressionante como o executar da dança dos famosos no Programa do Faustão. O fim disso tudo é o prazer, e eu falei tudo isso só para falar do prazer que me proporcionou a leitura do conto “A vingança”. A vingança é uma história muito comum dos bastidores policiais, confrontando um tema que está na ordem do dia, a agressão à mulher com o abuso de autoridade. A tortura, que é uma forma de execução sem julgamento, sempre foi praticada nas delegacias das cidades interioranas, sendo a força policial condicionada à vontade do cacique político do lugar. Giselda, com muita perspicácia, aponta a questão da queima de arquivo. A Margarida já vinha sendo desejada há muito tempo pelo amante de sua própria mãe, uma situação semelhante acontece em Crime e Castigo, onde o cinqüentão Svidrigailov “apadrinha” uma viúva, mãe de uma mocinha de doze anos, mas deixando claro que toda subsistência, todo apoio econômico tem um preço: Sividrigailov exige que todos o aceitem como sendo o namorado da mocinha de doze anos. Ele pretende se casar com a criança e isto é natural.
Esse humilde agricultor (também não é flor que se cheire), longe de nós defendê-lo. Mas esse desgraçado que levou “um telefone” (deve está tonto até hoje) funcionou aí como um salvador da pátria ele livrou a Margarida de uma situação muitíssimo constrangedora, que poderia acarretar traumas pra o resto da vida, falo de mãe e filha na cama com um mesmo homem, o que acontece muito Brasil a fora; nas estradas, muitos caminhoneiros possuem de um momento só mulheres e filhas menores de doze anos. O tema da pedofilia ainda encontra e sempre encontrará resistência no meio dos homens de “bem”. O impulso sexual é, na verdade, um impulso agressivo, destrutivo, Freud diz que, o que as pessoas realmente querem é usar os outros em benefício próprio, fazer uso do corpo e da força de trabalho. O homem não é igual aos animais, o homem é mau. Na idade média, as mulheres nem menstruavam, eram cedidas aos amigos de seus pais em troca de favores políticos, ainda aos onze anos de idade; houve um tempo em que as mulheres mal cresciam e já se casavam com homens bem mais velhos do que elas, isto com a conivência da família, as meninas só tinham um destino, o de serem prostitutas legalizadas. Elas nem sentiam prazer sexual, porque era pecado. O sexo era pecado, era tabu, coisa imunda, não podia fazer parte dos bastidores da ciência ortodoxa de Viena. Todos ficaram vermelhos de vergonha, quando Freud começou a explicar; começaram a se retirar, primeiro os mais velhos, depois os jovens. Essa distorção da sexualidade é que favoreceu, no mundo ocidental, o mercado negro do sexo, a zona de tolerância, mas no lar não dá para fiscalizar de como andam os afetos, eu quero dizer com isso que o ultraje à inocência começa, muitas vezes dentro da própria casa, a investida sexual do pai contra a filha; também que a falta de educação, de informação, a ausência de diálogo, e, principalmente, a falsa moral. Enquanto não trouxerem o sexo para dentro da escola, a droga para dentro da escola, a televisão o fará de maneira distorcida em suas novelas de péssimo gosto.
Helder Alexandre Ferreira
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