SECRETÁRIO DOS AMANTES
Aconteceu numa tarde esplendorosa,
Dessas que há no romance da raposa,
Aquela que seria a minha esposa,
A tez em porcelana maviosa
Excede Vênus-bela majestosa,
Beleza peregrina, apalaçada,
Debaixo da algaroba, delicada,
Descansa na cadeira preguiçosa.
No alpendre qual tranqüila estátua grega,
Silenciosa como deusa eterna,
Liberta a sua dor olhando, terna,
No teto a borboleta enorme, negra.
Um padre começava a tocar sino,
Um dobre de finados muito iguais
Às tantalizações dos madrigais
Que choram no seu rosto alabastrino.
Para ver a beleza peregrina
Da loura castelã, apalaçada,
Eu passava de tarde na calçada,
Na hora de comprar pão semolina.
Limiar da Avenida Mister Hull,
Ou final da Bezerra de Menezes;
Eu passei acolá milhões de vezes
Para ver a beleza ocidental.
Quarta-feira era dia de novenas;
Nos canteiros centrais havia zelos;
Eu tinha na cabeça umas centenas
De piolhos no conchego dos cabelos.
A noite de vivência prazerosa
Fez de mim Secretário dos Amantes
Ao dizer-me estes versos palpitantes
No rompante da lua remansosa.
Helder Alexandre Ferreira
VITRAL: PoesiasTerça-feira em Prosa e Verso, 08/03/2005
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