CONTO FANTÁSTICO
O corpo do poeta Francisco Alves de Carvalho estava sendo velado no prédio da reitoria. Eu me dirigira do sarau para o velório. A sala da reitoria onde acontecia o velório tinha paredes de vidro, eu contemplava Francisco no caixão através do vidro da parede. Diferente do que eu imaginava, o poeta tinha uma aparência juvenil, cabelos lisos, volumosos, talvez tingidos de castanho-claro; o corpo em decúbito era esbelto, não havia sinais de tecidos adiposos. Havia pessoas estranhas no velório do poeta, ninguém com quem eu pudesse compartilhar meus sentimentos, eu estava sozinho, saíra desacompanhado da reunião literária como sempre tenho feito. Um minuto um pressentimento de que uma amiga chegaria ali a qualquer momento...
O morto passeava pelos jardins da reitoria. Era preciso que uma funcionária do serviço funerário o convencesse de que estava morto e não podia ficar andando por aí. Mas o morto era lépido, tinha sua auto-estima, gostava de ação. Foi não foi, ele se levantava e saía displicentemente caminhando pelos pátios do palácio. Ei-lo, próximo ao canteiro que dava para a sala de velório, olhando, admirado, a multidão de estranhos que ficavam do outro lado do vidro. O poeta acenou para mim com a cabeça, nessa hora tive um sobressalto. Francisco olhou-me com afeto. Não tive oportunidade de conhecê-lo em vida, conheci-o através dos livros que ele publicou. Nessa hora tive um sobressalto, teria eu morrido também, cuida-se que somente os mortos podem ver os mortos. Mas o morto não estava morto, o morto estava vivo. Para mim era uma experiência pavorosamente bela, eu falando de rosto com o poeta Francisco Alves de Carvalho, parecia um sonho esse de nós dois irmos para um lugar reservado e ficarmos a vontade, longe dos cortejos fúnebres, daqueles olhares curiosos, sofisticados, aquelas gabolices inoportunas. Conduzia-se muito bem na conversa, falei-lhe de seus livros, e ele me pediu um soneto. Eu não costumo decorar as minhas poesias, mas mesmo assim fui dizendo o meu soneto subterrâneo até que, no último terceto, deu-me um branco, não me lembrei dos versos.
O térreo da reitoria estava extraordinariamente iluminado, o clima era de festa, muitas pessoas circundando pelos pátios do palácio que tinha muitas portas ao comprido do corredor. Toda uma claridade de luzes fluorescentes não permitia o namoro coisíssima nenhuma. Vi quando uma jovem muito bonita passeava acompanhada de uma amiga, vinha bem na minha direção e, de repente, um rapaz galanteador fez-lhe o cerco com palavras sedutoras pertinho dos ouvidos dela. A jovem muito vaidosa se houve com naturalidade, não dando atenção ao conquistador, não obstante denotasse satisfação, visto que o rapaz era bem apessoado, uma bela figura. Estava no avançado da hora, dava-me um gosto amargo na boca, logo tudo aquilo seria deserto e solidão. E se o tempo voasse, o trânsito ficasse calmo, aquela gente se volatilizasse, o tempo fechasse de repente, tudo voltasse a ser nada? E se o sonho acabasse antes de eu me acordar?
Minha mãe estava viva, conversando com dona Nely; pela fresta da porta pude ver a boca de minha mãe sempre falando em meu favor. Minha mãe falava dos remédios que eu tomo, dentre eles o (...) Nely nunca me deu crédito nessa vida. Nem minha mãe, se voltasse do céu, conseguiria fazer com que Nely aceitasse o meu namoro com sua filha L.
Pulsões sonetos e outras poesias
Helder Alexandre Ferreira
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