terça-feira, 19 de agosto de 2008

DE VOLTA PARA OTÁVIO BONFIM

DE VOLTA PARA OTÁVIO BONFIM



Eu resolvi fazer como nos velhos tempos em que o domingo era um dia para lá de especial para mim; decidi voltar para Otávio Bonfim, queria rever velhos amigos e eis que me vejo diante de Marcos, um companheiro de luta nas comunidades eclesiais de base; eu conversava muito com aquele meu amigo agente de pastoral, nos meus tempos de agitação política. Marcos sempre residiu por trás do Bradesco, nas imediações da favela do corrente e do mercado velho, seu pai era líder comunitário e tinha uma pequena venda na própria casa de onde tirava o sustento. Marcos tinha uma profissão, era técnico em consertos de eletrodomésticos, ganhava até bem, possuía uma motocicleta. Um dia ele foi até minha casa, na Rua Érico Mota, buscar um livro de poesias que eu lhe prometera. Mas isto foi há muito tempo. Eu não via Marcos desde 2001, minto; outro dia nos vimos no centro da cidade, cumprimentamo-nos com alguns monossílabos, estávamos muito apressados.
Marcos não envelheceu nada, parece o mesmo, gordo, queixo duplo, a barba, os óculos, e, aquele ar peculiar de frade franciscano. Ele percebeu que eu estava a braços com aperturas financeiras, meteu a mão no bolso, tirou pedaços de papel, eram endereços de pessoas para quem ele prestava serviços de conserto.
_ Estou precisando de um auxiliar de cobrança. Por que não aceita, terá parte nos meus lucros. Segure isto, _e pôs os papeis em minhas mãos. _ Ponha o pé no batente. Aí tem os endereços. Estava precisando mesmo revê-lo, pois não tenho tido tempo para fazer minhas cobranças. Vieste em boa hora. Agora tenho de ir. Desejo-te sucesso nesse empreendimento.
A letra de Marcos era quase ilegível. Com boa vontade, consegui decifrar o que estava escrito em um dos recibos que ele me deu. Aprendi um local, ficava na Rua Teófilo Gurgel, 696, enfiei para lá. Muro alto para dificultar a entrada de ladrões, a casa tinha paredes brancas, ficava recuada, o portão, porém, estava aberto. No jardim ou na entrada, havia uma churrasqueira, e o proprietário parecia um tipo espaçoso, imponderado e displicente, deixara o portão aberto. Estranho, todos os vãos eram sem portas, e a casa tinha dois andares, o acesso ao andar de cima era pela lateral, havia uma modesta escada ali,. Então mostrei o recibo de cobrança. O devedor, folgazão, após saber-se inadimplente, deu-me um pedaço de queijo assado e subiu a escada. Eu fiquei meio encafifado naquela casa vazia e mal iluminada, deu-me um mau pressentimento, seria uma peça que o meu amigo de longínquas datas estaria pregando?... Não sei se... Então o dono da casa desceu aos trambolhões, tinha o rosto congestionado.
_O que é que o senhor ainda está fazendo aqui?
Soltei o queijo no chão.
_Como se atreve a sujar o piso de minha casa?
_Desculpe-me, senhor, mas não vim aqui para comer queijo assado. O que me trouxe aqui foi uma dívida. Não sabe ou não se lembra de que solicitou os serviços de Marcos Bezerra? Sou representante desse rapaz. Estou aqui para receber o pagamento.
_Marcos Bezerra?... Ah, ah, ah, ah! O senhor se diz amigo de Marcos Bezerra e...
_Eu não digo nada. Não estou aqui para dizer coisa nenhuma. Vim buscar o dinheiro do rapaz. Vamos, pague!
O homem encerrou dizendo que o pagamento estava em minhas mãos.


Rua Padre Anchieta foi outro endereço decifrado a duras penas. O cliente eu o conhecia de tempos mais verdes, era o Juarez. Ah! Eu me lembro muito bem do Juarez. Ele ficava apavorado com baratas, e certo dia uma barata subiu-lhe pela perna. Ele deu o desespero, jogou a roupa fora, ficando só de cuecas na Avenida Bezerra de Menezes. Fui encontrá-lo em cadeira de rodas. Juarez sofrera um acidente automobilístico. Não tive coragem de cobrar nada. Despedi-me dele e enfiei para a Temberge aonde encontrei Ana Neri , minha ex-namorada, nos tempos do grupo de jovens. Neri passava pelo outro lado da rua, no sentido em que eu seguia. Ao contrário de Marcos, Ana Neri estava bem mais envelhecida, não obstante conservasse a inocência, a pureza das amadas que envelheceram sem maldade. Dissimulada, olhou-me oblíqua, reconhecera-me e apressou o passo, deve ter ficado morta de vergonha. Também aquele nosso namoro...
Gritei seu nome, e ela parou. Conversamos ali mesmo na rua uma conversa agradável, que, sem que nos apercebêssemos, estávamos indo na direção da casa dela. Ao chegarmos a sua casa, sua mãe, dona Gercilda foi logo me advertindo de que a filha havia tido problemas.
_Problemas.
_Sim, problemas. Minha filha, hoje, é praticamente inválida. Uma criança. Ela não se recorda do tempo em que namorou o senhor, coitada... Rezo muito por ela, _ao dizer isto me apontou o ícone sobre a mesa. _ Coitadinha de minha filha! Se ainda sente_ não digo amor_, mas boa recordação daquele tempo, peço que a distraia... Que converse com ela... Vá para a cozinha tomar café, acabei de passar agorinha. Mas não se esqueça de que Neri é uma criança. Acautele-se. Disse-lhe que entre nós, hoje, o que há é respeito e amizade. Visto isto, acompanhei Neri até a cozinha. O corredor era estreito, Neri ia à frente; eu sempre mantendo uma respeitosa distância, segui-a. De repente, Neri suspendeu o vestido e tirou o meu retrato. (Estava sem calcinhas.) Eu quase caí de costas, mas logo me lembrei do que dona Gercilda havia dito. Realmente aquilo era próprio de criança, coitada... Onde já se viu Tirar o meu retrato! Neri dissera que tinha feito aquilo para tirar o meu retrato! O meu retrato! Apesar do chiste, passamos horas às sós, na cozinha (e eu nem me lembrava mais do que me incubira Marcos), Ana Neri agia como nos velhos tempos. Exibicionista, intentou pôr o traseiro sobre o meu rosto, foi a gota dágua, deu-me um constrangimento, quis ir-me embora, mas já era tarde, muito tarde... Eu precisei de mais algumas horas de sono, esticar até o alvorecer. Até lá precisei sonhar que tudo aquilo não passava de um sonho.



Helder Alexandre Ferreira
Pulsões sonetos e outras poesias

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