A memória é o espaço poético tradicional e o caminho progressivo para o conhecimento de um espaço novo, onde os traços e vestígios (as reminiscências) dão o tom crepuscular, que confunde matéria e antimatéria. Flores, estradas, folhas vão surgindo misturadas ao medo dos amantes, numa atmosfera de cromo e confidência.
Há a mão dourada do sol
E há o hálito quente de Eros
Pressupomos que Van Gogh seja um dos modos de pensar a poesia de Giselda Medeiros, que, dispersa pelo ar intangível, corta a vermelhidão do prazer. Unificando os lados opostos da vida (sentimentos e objetos), a poetisa derruba as muralhas que há entre o real e o imaginário, ela mesma desmistifica o mistério da poesia, quando aborda a ternura do corpo através dos paroxismos difusos do violino esquecido sobre a cama. O fundamental no fazer poético são as sensações da alma e a simplicidade das palavras. E isso Giselda tem na visão todo-poderosa do amor, ondulando, enlouquecendo, atraindo... Canção para buscar-te, não obstante à primeira leitura cause um choque paradoxal de imagens desconexas e associações inquietantes, dá-nos um exemplo de que a comunhão da sensação com a palavra sob o impulso da voragem do amor inaugura o senso de momento poético de um eu que se revela nos lados opostos da vida e que tem uma relação direta com as necessidades instintivas (diretas da carne), reorganizadas num espaço novo, numa atmosfera de cromo e confidência, uma poesia feita de silêncios mudos e gritantes, derramando-se quente entre gestos e ânsias, entranhada e impregnada das fontes biológicas do amor e do ódio, Eros e Thanatos.
Helder Alexandre Ferreira
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