segunda-feira, 25 de agosto de 2008

NEM DA TERRA NEM DO MAR

A elaboração literária é uma composição carregada de pensamentos oníricos, mas tais pensamentos nunca são transcritos ao pé da letra, a linguagem literária tem ao seu dispor as imagens estilísticas, assim como nos sonhos temos as imagens pictóricas. Não é fácil compreender um conto, uma poesia ou uma crônica, por isso que a maioria dos alunos vestibulandos tem pouco ou quase nenhum êxito na prova de interpretação de textos. Muitos consideram irrelevante a leitura de um clássico. Em nossas lides literárias há os que não têm disposição para a leitura; alegar falta de tempo é apenas um álibi, uma negação da verdade, e a verdade é que muitos não sabem ler. Não é fácil ler, a leitura é uma atividade cansativa e enfadonha, mas que não é impossível; ler se aprende lendo. Para montar um quebra-cabeça faz-se necessário organizar as figuras, num texto, a cadeia significante deve ser seguida, pois somente assim encontramos o verdadeiro caminho que leva ao mar. Pessoas inteligentes de nossa sociedade interpretam “Tinha uma pedra no meio do caminho” ao pé da letra. Não entendem nada de linguagem figurada, metáfora, metonímia, sinestesia, etc. Ficam dizendo que o poema acima é uma idiotia, que nem existe a estrela da manhã. Se sonharem um sonho típico algo como estar andando nu, ou com a morte de um ente querido, como é que essas pessoas ficam? Eu diria que ficam doentes da cabeça por um pequeno espaço de tempo. Quem pensa que a pedra no meio do caminho é uma pedra real, e diz que Manuel Bandeira quer a estrela (corpo celeste cintilante) só para ele (e nem o pipoqueiro da esquina pensa dessa forma); quem acha que as coisas são escritas desta maneira não pode se arrogar ao direito de dizer que é um intelectual ou coisa parecida.


O instigador correntemente ativo desse texto remonta para os primeiros passos da poetisa no mundo azul da literatura. O mar é o mundo. O infeliz viajante é a própria autora, e os vários episódios de tentativa de suicídio simbolizam os abortos poéticos. No último parágrafo, ela deixa entrever esse desejo. Eu vou continuar numa outra oportunidade, deu-me agora uma amnésia redacional.
Conforme disse no começo deste texto, os pensamentos oníricos não passam com fidelidade para o conteúdo do sonho. O desejo latente que podemos chamar de umbigo do sonho, ele é substituído mediante o trabalho do sonho por uma seqüência absurda de imagens, e o nome disto é distorção, a distorção está presente no conteúdo manifesto, o pedaço de sonho que somos capazes de reproduzir, isto é, transformamos as imagens em pensamentos, dando uma percepção ao que sonhamos. A praia deserta é um simbolismo universal do amor apaixonado; os filmes e canções dos anos sessentas e setentas têm como cenário uma praia deserta. Lembro-me de um filme que fez muito sucesso, “ Quando calienta o sol naquela praia.” A trilha sonora tinha o mesmo título do filme. Não é só a lua que é dos namorados, a praia, principalmente deserta, sempre foi o grande afrodisíaco; não é à toa que as moças nubentes sentem-se atraídas por marinheiros e adjacências, e em vista de tal fenômeno, os homens ditos da terra firme criaram o cordão das coca-cola no sentido de humilhar os soldados americanos que vinham para o Brasil no tempo da segunda guerra mundial. As mulheres nunca fizeram distinção entre as forças armadas, no meu tempo de exército, havia uma mulher da rua, no passeio público que chamava a gente de marinheiro, mas a gente era do exército. Para não perder o fio da meada, voltemos para o conto (sonho) de Giselda Medeiros. Menti quando disse que Giselda pensou em abortar sua poesia. Quando disse isto, não estava a rigor para o banho, banho aqui no sentido de banho de competência psicanalítica. Eu estive passando por uma seca literária, uma amnésia redacional, por isso parei naquele momento, mas agora retomo o fio da meada do desejo de Giselda Medeiros. Em seu desejo imperativo, ela se substitui por aquele pobre diabo a quem o destino lançou na rua da amargura, o moço fica impotente diante dela que agora é uma escultura de cinza e areia, fica feito um morcego balançando ao vento, num ir-e-vir das ondas. O que está disfarçado sob a aparência daquele mundão azul que sempre o fascinara é a inveja que ela tem do mar. Para reivindicar aquele mundão azul, ela se substitui pela noite, uma noite ansiosa da lua, e a lua é um orgasmo. A noite inibe os passos, impede os movimentos, e o infeliz viajante fica impotente de adentrar o mar (realizar o desejo), o seu corpo, em contínuo ir-e-vir, agora são as ondas em sua canção solitária, o desejo é um morcego balançando ao vento; ele nunca está a rigor para o banho. A noite olha o morcego balançando ao vento e crava as mãos na areia; a noite, em contínuo ir-e-vir, na iminência do mar com suas ondas espumantes. Ela se sente um peixe morto na areia (morto, não, livre!) Ela agora está livre, de vento em polpa, o seu corpo todo feito de conchas e corais parece uma tatuagem desenhada nas águas do paraíso.





ANÁLISE:


O sintoma é o que liga o sujeito ao seu desejo, e quando falamos de sintoma, estamos nos reportando ao SIGNIFICANTE, a fala, o discurso. Todo discurso substitui as reais intenções do sujeito, por isso o significante ocupa o lugar do desejo, sendo o significante do desejo. Aplicando tudo isso ao sonho, a síndromes neuróticos, podemos asseverar que o conteúdo latente (os pensamentos oníricos) são distorcido pela censura de quem escreve, age ou sonha, portanto a obra de arte literária é a subversão da realidade, é uma supra-realidade. A autora inventou absurdos para que ninguém compreendesse o tema-clichê dessa história açucarada, a saber, a primeira noite de amor. Ela realizou esse desejo de forma assombrosa. O sonho cumpriu a sua missão que é realizar desejos.


Interpretação


A autora (sonhadora) de “Nem da terra nem do mar” nos dá um belo exemplo de sonho de nascimento. Sonhos de nascimento são aqueles cujas fontes somáticas promanam da bexiga, a necessidade, o estímulo urinário, todo esse incômodo da bexiga cheia é que vai entrar como material somático na construção dos pensamentos oníricos que são os instigadores correntemente ativos, ou seja, o que está em ação no inconsciente, e que encontrou uma associação com a vontade de urinar. Quando adormecemos sem esvaziar a bexiga, o sonho, para manter o sono, converte os estímulos urinários numa estimulação das regiões sexuais e de suas representações simbólicas. Água, urina, sêmen, entrar no mar, molhar-se, enurese, cópula, gravidez, nascimento, nascer das águas, ejaculação, polução, partir para o mar, ali, à sua frente... O mar geme também as suas angústias e as daquele homem, completamente nu, misto de gente e réptil, em seu esforço para alcançá-lo. Está quase vencido. Vamos, falta pouco para o nascimento! Giselda relata o ritual do nascimento. Aquele homem precisa nascer de novo, falta pouco, o mar está ali, à sua frente... O que Giselda conta pode ser entendido se fizermos o caminho inverso, isto é, desatando os nós da distorção, invertendo, portanto, o acontecimento relatado pela autora (sonhadora) de “ Nem da terra nem do mar”. Ao invés de ir para o mar, Giselda tem de sair dele (do útero) para poder nascer. Nascer para o mundo acadêmico das lides literárias, sair da gaveta (do útero), que é a morada dos que ainda não nasceram? O conteúdo manifesto (o sonho reproduzido) mostra sempre o seu oposto, portanto entrar nas águas realiza o desejo de sair das águas, do útero, e tal nascimento é bastante ilustrado na mitologia mediante o nascimento de Adônis, Osíris, Moisés e Baco. A entrada nas águas simboliza o novo nascimento. De repente, estanca em plena via-sacra. As pernas lhe são enormes pesos a impedirem os movimentos dos pés. O mar espumante no seu ir-e-vir das ondas representa os impulsos sexuais temidos e combatidos pelo recalque. A libido é uma força temida pelo ego. Se a consciência de vigília captura e transforma (sublima) as pulsões, resíduos da vigília (estímulos sensoriais externos e excitações sensoriais internas, o corpo e o ambiente) são aproveitados pela consciência onírica, isto é, pelas representações recalcadas. Os passos na direção do mar buscam a glória e a imortalidade, mas, foi não foi, extremecem... Retroagem... Os pés não obedecem à realidade, e a pomba do espírito santo com suas fantasias sobrevoa o sonho de Giselda, sonho de nascimento, ou de salvamento, visto que tem o mesmo significado de dar à luz. Dar à luz! É isso! “Nem da terra nem do mar” é um trabalho de parto, pois, conforme eu já tinha dito, o último parágrafo explica notavelmente o conteúdo latente do texto, ou do sonho, do desejo da autora (sonhadora). Giselda vai contra o direito de nascer. Ela sustenta em favor do suicídio (aborto poético). Giselda não tem consciência, porque está dormindo. A via-sacra do infeliz personagem é um devaneio para distorcer o desejo da libido, _ os abortos poéticos. _ Aquele verme nem precisava nascer. Este pensamento é próprio das crianças que nunca desejam a vinda de um irmãozinho, e é por aí que se revela o negativo de “Nem da terra nem do mar”, os componentes da sexualidade infantil substituídos pelo caminhar resoluto em direção ao mar (às águas), o que equivale a sair das águas (do útero), o nascer das águas, a angústia de nascimento, as ondas espumantes, ou seja, a visita do pai enquanto se está no útero da mãe, todas essas lembranças arcaicas se fazem presentes na forma do réptil (animal fálico), simbolizando cenas de nudez. Aquele homem completamente nu precisa das mãos livres para remar na areia. Aquele homem, absurdo! Ficou por entre as rodas da imensa carreta. É obvio que essa imensa carreta simboliza o corpo feminino, e as mãos livres para remar na areia é uma distorção do jogo sensual das carícias. Quanto a insistência em dizer que era analfabeto é outra distorção notável do trabalho do sonho que resolve livrar-se do supérfluo (da culpa). Esse pensamento oposto aprece diversas vezes no texto. Não sabe ler. É analfabeto. E nem sabia ler...









Helder Alexandre Ferreira
Interpretação do texto onírico de Giselda Medeiros

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