O que me trouxe aqui foi a minha história profissional irregular ou minha vida social deficiente. Hoje eu conheço bem o termo depressão. A minha primeira depressão aconteceu quando fomos residir na Parquelândia, era o ano de 1969. Meu pai havia ganhado na loteria e compramos uma bela casa na Rua Érico Mota, 699. Casa nova, vida nova, no entanto, não consegui fazer amizades no bairro. A minha brincadeira era ficar matando moscas pelos cantos da casa. Eu morria de vergonha de que os meninos do Grupo Escolar descobrissem que eu não brincava na rua, sentia-me culpado por isso, principalmente, ao ouvir as queixas de meus pais, que brigavam comigo por eu não ir para o meio da rua brincar com os outros meninos da minha idade. Minha mãe pedia para que meu irmão mais velho, Francisco, me obrigasse a tomar sol do outro lado da rua. Meu irmão respondia não ser possível ao menos que me amarrasse pelos pés e pelas mãos e me deitasse do outro lado como fazem com os porquinhos e outros animais inferiores. Chamavam-me chá-de-goma porque eu era muito branco. Eu não sentia gosto na comida, e demorava horas para adormecer. O meu brinquedo noturno eram as imaginações, tinha muitos amigos invisíveis: O Pato Donald, uma cidade de bichanos, a Gatolândia; já o Paulo Clécio era um hibridismo de Durango Kid, Zorro e Ultra-man. Eu me identificava também com o personagem Will Robinson da série Perdidos no Espaço, pois aquele menino não tinha amigos da idade dele, os seus únicos amigos eram o doutor Smith e o robô. Essas fantasias antecediam o meu adormecer, mas nunca entravam na construção dos sonhos, os meus sonhos tinham um caráter ou edipiano ou de castração. Eu sonhava com minha mãe sendo perseguida por um boi ou com o meu pai sendo levado para a delegacia. (Importa dizer que quando morava em Antônio Bezerra havia muitos matadouros e as manadas passavam defronte de minha casa, o que me apavorava. Certa manhã um touro tentou cobrir uma vaca na calçada).
Acho que já falei cinco minutos, os senhores escutaram, e as minhas turbinas estão aquecidas. O senhor não me fez perguntas exclusivas, a minha associação foi livre, e o rapport está estabelecido. Pelo que os senhores escutaram deu para detectar questões que perturbam a minha mente, os senhores agora têm o reconhecimento, a pista de prováveis psicopatologias. Agora que já falei demais, fale o senhor, pois eu estou morto de cansado, turbinas aquecidas, sem intimidação, estou pronto para enfrentar a enxurrada de perguntas diagnósticas que virão. O que me fez vir aqui, hoje? A depressão. Minha mãe morreu faz poucos dias. É que estava marcado para hoje a entrevista. O que anda me preocupando? A falta de dinheiro. Como o senhor pode me ajudar? Apressando a minha cirurgia. O que pode fazer por mim? Abrindo um parágrafo no meu prontuário para que eu possa fazer a aquisição de minhas receitas e verificar a dosagem dos meus remédios e outros procedimentos como encaminhamento para o oftalmologista e gastroenterologista.
Sou um paciente que fala demais. Pode cortar a minha fala. É para o meu próprio bem. Não fico aborrecido.
Propus casamento a uma velha amiga. Ela nunca se casou, tem um filho, o Gabriel, mora sozinha. É uma mulher bastante bonita. Não sei por que só agora a gente resolveu que devia se casar. Acho que a solidão está falando alto. O problema é o dinheiro. Ela é beleza pura, mas não dispensa o conforto. Ela nunca se libertou do trauma da morte da mãe dela ocorrido em 1981, quando ela contava 15 anos. Estavam numa briga doméstica, ela ficou com remorso até hoje. Nunca se casou, e, segundo o Gabriel, vive a falar no meu nome. Estou pensando em botar um negócio, uma papelaria mais franquia da Pardal. A casa tem espaço. Ela ficou linda na noite em que marcamos para conversar. O argumento foi o Lacan que eu levei para ela, o quinto seminário, formações do inconsciente. Eu sei que ela não vai ler, mas isto foi só um pretexto. O pai dela é senhor muito idoso, e ela já tem mais de quarenta, mas continua um luxo.
Helder Alexandre Ferreira
Nenhum comentário:
Postar um comentário