Expressão pura e livre, o lirismo de Leda Costa Lima remonta ao grande momento da poesia lírica onde o próprio eu passa a ser o centro do universo poético, de modo que Rastros do Silêncio contém os desencontros do amor e o desespero da solidão a guisa de mensagem comprimida na garrafa. Rastros do Silêncio é um livro de sofrimento, uma sofrida ausência como nos atestam estes versos: Vivi de amor, de alegria/ Hoje a saudade, em surdina, /Jorra sonhos em cada esquina. / Como também uma profissão de fé ao meditar o Pai-Nosso, no qual o impulso desemboca na categoria do espírito, onde a poetisa vê-se entre a cruz e a espada, meio santa, meio clown, conversa com anjos, sorri para si mesma, incorporando Narciso na busca do eu realidade originário, lapso de imagem que inaugura a natureza do Eu-absoluto. Aí temos o momento da criação poética, a quebra do espelho: o sofrimento que gera impulso, impulso que gera aprendizagem, resultando na resposta. Rastros do Silêncio é uma resposta à ansiedade da frustração afetiva e do conflito espiritual. A poetisa faz oposição elegante à angústia do real, navega em mar revolto a solidão e a saudade que se comprimem em quatro versos heptassílabos. A estética do desejo em Leda Costa Lima consiste na beleza de suas trovas, que, ao comprido do livro, vão edificando os seus poemas. A estrofe-verso goza de autonomia, portanto os textos erguidos a partir desse instrumento têm poderes harmônicos, independentes entre si; ademais a redondilha maior, de fácil manejo sintático por ser o verso idiomático da língua portuguesa, consagra em definitivo a faculdade poética de Leda Costa Lima como sendo poetisa de inspiração livre, originária e verdadeira. Como falou Shiller: “O único homem verdadeiro é o poeta, e em comparação a ele o melhor dos filósofos é somente uma caricatura.” Para concluir, diríamos que ela conserva a matéria-prima dos românticos, mas, menos pasteurizada, menos orvalho e mais cética, libera a geral, voa nas asas da imaginação à procura de si, numa fuga desesperada da emoção para, assim, realizar a odisséia do desejo.
Helder Alexandre Ferreira
RASTROS DO SILÊNCIO ( Leda Costa Lima)
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