C O T I D I A N O
Dei de cara com uma coletânea da Ala feminina da Casa de Juvenal Galeno, datada de 1992, na Biblioteca Pública. Eu gosto de vasculhar as prateleiras, e sempre que vou ao centro, passo pelas livrarias. Vejo muita coisa boa, mas também tem cada marmota exposta na vitrina; aliás, os piores livros são os mais visíveis, e, lamentavelmente, os mais procurados. Você se lembra daquela coisa chamada o cavalo de tróia, o autor ganhou tanto que fez três edições. E o Paulo Coelho... Você já leu alguma coisa dele? O que é que ele escreve? Nem o Mandraque conseguiu o que ele tem conseguido que é ficar rico vendendo livros no Brasil e no mundo. Tem gente por aí podre de rica só de vender os poderes infinitos da mente. Jose Albano, quem é essa pessoa? Nenhum estudante daqui conhece o maior poeta daqui, o autor de “Ode à língua portuguesa", e isto é um crime de lesa poesia.
É fato que os livros são caros; agora você sabe por que custa muito adquirir um Murilo Mendes, uma Clarice Lispector, ou uma obra de Freud como a Interpretação dos Sonhos? Porque o produto caça-níquel, a cultura inútil está ao alcance de todos; você sabe por que é que um DVD do Chico Buarque custa os olhos da cara? Porque o Zeca Pagodinho é vendido pelo um precinho pequenininho, mas quem paga o prejuízo é aquele ou aquela que adquire um Chico Buarque. Pois é, dona Giselda, o mercado tem esse mecanismo safado, o mercado é contraproducente, ou seja, ele forja o consumo, senão vejamos: A publicidade de cerveja vende não só a cerveja em si e outras variantes símiles; o reclamo sem moderação (e é bom que se frise) termina dando lucro ao farmacêutico. O cara enche a cara com mais outros caras, vai para a direção e depois quebra a cara dele e da mulher dele. Todos vão direto pro hospital; depois, para a farmácia, e é aí que a boa da Juliana Paz ajuda, também, a vender medicamentos como antiinflamatórios, analgésicos e coisas do ramo. É que o mercado não tem moderação, e quando só se pensa no lucro as conseqüências são dantescas. Mas voltando à nossa praia, livros, eu os leio sem moderação, pois o lucro é somente meu. Eu não preciso comprar livros, eu tenho a Biblioteca Pública Menezes Pimentel, é lá que é o meu templo da glória e da imortalidade. Os poucos livros que carrego comigo, é tudo cortesia da terça em prosa e verso, quanto aos antigos livros do tempo de colégio, tadinhos! Vendi-os no sebo para comprar uma máquina de escrever no Romcy.
Menti quando disse que o lucro era somente meu. O conhecimento tem o caráter da democracia. O que leio e aprendo é transformado, condensado e despejado no papel. É o caso do poeta José Albano. Gostava tanto de Camões que por pouco, pouco, muito pouco, não escreveu o seu “Os Lusíadas". Não escreveu, não, mas "tirou fino"; assim foi Dante um admirador de Virgílio, quer dizer, a idéia vai passando de cabeça em cabeça, embora cada cabeça seja uma sentença. Manuel Bandeira diz que a Eneida é uma contaminação da Ilíada com a Odisséia. Conheci uma senhora professora aqui em Fortaleza que dizia não gostar de Camões. “Os lusíadas? Aquilo é um saco; já Homero, Virgílio e Dante são sumos poetas”.Acredito eu que essa senhora teria sido também professora de história do Brasil, isto explica a ojeriza dela em relação aos lusíadas. Certa feita, eu ainda era um rapazola, fazendo curso de férias, para revisar a matéria. Foi aí que um professor radical levou o nome de Rui Barbosa à execração pública perante a classe. Quanto a essa figura aqui, (disse o mestre se referindo ao Águia de Haia), não há muito que se dizer dele não. O mesmo pensamento foi expresso por um advogado, que era meu chefe de escritório, no Palácio Progresso, onde eu era boy. “Esse Rui? A irmã dele é quem dizia que ele era um idiota. Ele só sabia escrever. Também se não soubesse, ele só vivia lendo!... Eu não gosto de Rui Barbosa nem de Monteiro Lobato, mas só por uma questão de ideologia política, pois na arte eles foram notáveis, ou melhor, eles são notáveis artistas da palavra e merece todo o nosso respeito”.
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