sexta-feira, 20 de março de 2009

A P O N T A D O N A R I Z

A P O N T A D O N A R I Z



Hoje eu gostaria de falar com vocês sobre o silêncio mortífero. Na história da psicanálise, a relação de mal-estar de Freud com o escritor vienense Schnitzler, que lhe era contemporâneo, pode ser lida como emblemática desse tipo de neuropsicose de defesa.
Tal escritor era de uma agudeza e extensção da compreensão no que diz respeito às fraquezas e realizações humanas, assim como a elegância de seu estilo. O talento leterário de Schnitzler levou Freud a se lastimar da facilidade e alcance com que o escritor podia alcançar aquelas regiões chamadas profundas. Abro um parênteses aqui para lembrar que Freud sentia-se muito bem quando escrevi sobre Dostoiévski. Depois vocês entenderam esse comportamento do pai da psicanálise. Voltemos agora ao contemporâneo de Freud. Todo contemporâneo não deixa de ser uma ameaça, até mesmo na literatura. Na literatura, meu Deus! Freud admirava Schnitzler, idealizava-o, reputando-o excelente. O capítulo a ponta do nariz do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas ilustra bem esse mal-estar em Freud diante de um escritor brilhante seu contemporâneo.
Todos nós temos uma mórbida necessidade de separação. A separação necessária é uma solução de compromisso. O sitoma, em sua conduta defensiva, manifesta-se ante o acting Out (uma ação no lugar do pensamento). Evitamos uma pessoa sempre que a relação ameaça a nossa integridade NARCÍSICA, pondo em risco nossas pretensões de primazia e superioridade, por isso que a resolução particular de Freud foi a de evitar o encontro com esse outrem, uma vez que aquele havia se revelado perigoso. O comportamento de evitação é um mecanismo de defesa coerente com a perpectiva freudiana, que é a de tratar essa espécie de conflito pelo método da sustentação de uma SEPARAÇÃO NECESSÁRIA. A psicologia acadêmica classifica este ato-sintoma Conflito evitação/evitação.
Ao ficar olhando sempre a ponta do nariz, o personagem Brás Cubas se recata de ouvir com atenção os magníficos versos de um poeta seu contemporâneo. Um Cubas também faz versos. Não obstante fizesse digresssão, evitasse olhar o rapaz de rosto, preferindo olhar para a ponta do próprio nariz, Brás Cubas percebera que o novel escritor escrevia melhor que ele.
No tempo em que os animais falavam, havia um vaga-lume de brilho estoteante, que parodiava o sol, associando-se à lua. Como brilhava aquele vaga-lume! Mas uma cobra, uma serpente sentiu um profundo estranhamento diante do brilho do vaga-lume e quis devorá-lo sumariamente.
__Por que queres comer-me? Nâo sou da tua cadeia alimentar.
Tu brilhas, foi a resposta da serepente. Tu brilhas. Tu brilhas! E eu não gosto disso. A cobra devorou o vaga-lume.
Quando olhamos para dentro de nós mesmos (a ponta do nariz), estranhamos o outro que brilha, tal estranhamento, caso não seja solucionado, fica suspenso numa conversão que interfere no funcionamento do corpo; diante do horror da castração (insuficiência) cegamos dos olhos, a perda dos olhos aqui, designa a separação necessária do outro, quando a nossa majestade, o nosso status quo está sendo ameçado pelo brilho de um vaga-lume qualquer.

O conceito de transferência nasceu da elaboração freudiana do estudo sobre os sonhos. O sonho é o ponto de partida numa sitação analítica. Tanto a trasnferência e a contratransferência que nos remetem a uma situação bastante fascinante lembram um AGIR SONHANDO. Toda ação na transferência nois remete ao conceito de ACTING OUT.

O Acting Out se dá através da ação e de comportamentos no SETTING (cenário analítico); é a expressão pela ação, o que nos aproxima da idéia de uma dramatização, a neurose de transferência é símile a representação teatral, ao sonho, que não deixa de ser uma encenação onde a MENTE é o PALCO; e os atores, o sujeito que sonha. A transferência é um agir enquanto sintoma, comportamento artificial, quase como sob hipnose, daí sua proximidade do estado onírico.

A neurose de transferência substitui a RECORDAÇÃO PELA REPETIÇÃO, e este fenômeno é próprio do SONHO

Toda ação está dizendo algo; pela transferência, no acting out, o paciente diz de um outro modo o que quer sair da linha ASSOCIATIVA VERBAL. É conseqüência da RESISTÊNCIA que reage à regra fundamental proposta pelo analista. A transferência como CONVERSÃO HISTÉRICA (corpo que fala) ou FEITICHISMO DO SEIO MATERNO, __ em contraste com a SOMATIZAÇÃO (corpo que sofre) devido ao colapso do SONHAR e a ADICCÇÃO, que é um FEITICHE sem sentido, __ é por excelência, o ESPAÇO DO SONHO.

O Acting Out enfatiza que a DRAMATIZAÇÃO na transferência não é uma COMPUSÃO Á REPETIÇÃO propriamente dita, mas um modo de DIZER PROVOCADO PELAS COMPLICAÇÕES DA RESISTÊNCIA QUE PROTEGE O RECALCADO.

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