ECONOMIA PSÍQUICA E ECONOMIA DE MERCADO
ENTRELAÇAMENTOS
Hoje eu gostaria de falar com vocês a respeito do sintoma. Os sintomas são os fantasmas visível e invisível da doença, a forma de como a doença se apresenta. Da parte visível da doença, o sintoma é a que está mais próximo do essencial, ele é a primeira compreensão da doença, o primeiro atalho que pode levar à inacessível natureza da doença. Para a psicanálise, o sintoma não revela a verdade de uma doença orgânica, o que não quer dizer que não revele uma verdade: a verdade do sujeito do inconsciente. Ao contrário da psiquiatria que tem, na medicina, o seu arcabouço empírico, científico e neurofisiológico, e que, no campo da clínica médica, faz do sintoma uma doença natural, separada da história do sujeito, a psicanálise reconhece o sintoma como símbolo mnêmico, substituto ligado à linguagem, mas que tem um aspecto pelo qual se faz possível uma realização pulsional na dimensão do GOZO. O sintoma como representante do desejo, ocupa o lugar que seria do desejo, e em sendo o SIGNIFICANTE DO DESEJO, o sintoma é o que relaciona um sujeito ao seu desejo.
Em toda relação de desejo temos o objeto parcial (lugar da fala), o que não é outra coisa que o amor do objeto com exclusão dos genitais, fase do desenvolvimento psicossexual cujo estágio coincide com o estágio do desenvolvimento fálico (a organização genital do indivíduo), e tal relação é determinada no interior de uma relação mais vasta que é a exigência de amor. O amor é a demanda do sujeito desejante. A relação da DEMANDA DO SUJEITO COM O SEU DESEJO exige considerável dose de compreensão da parte do analista. A questão é o desejo manifesto do sujeito, a emergência dessa manifestação. É exatamente o amor prestes a aceder ao objeto, ou seja, o desvio do objeto através da sublimação pulsional, a sublimação parcial da libido o OBJETO NORMAL, socialmente aceitável; o amor do outro sexo, o amor implicado nesse estágio, estruturante, estrutural a que chamamos estágio fálico é justamente o amor do outro, tão completo quanto possível __ menos os genitais.
A descoberta do inconsciente é a descoberta da ORIGEM SEXUAL E DA DETERMINAÇÃO SIGNIFICANTE DO SINTOMA, que estão inscritos no inconsciente. Analisar os sintomas é decifrar essa inscrição; é pôr em evidência, a cada vez, sua condição de FORMAÇÃO DO INCONSCIENTE E DE REALIZAÇÃO DE DESEJO. O sintoma é o lugar do sofrimento que proporciona satisfação sexual para o neurótico sem que ele o saiba, conscientemente. Se o paciente entende seu sintoma como algo orgânico, decerto que procurará um médico; caso contrário, poderá procurar um analista. Se começa a vislumbrar que o sintoma é um ENIGMA, através do qual uma VERDADE dele mesmo o desafia, o caminho para Tebas está aberto e mais uma análise se inicia..
Mas as análises freudianas aconteciam numa outra realidade. A realidade econômica atual é a globalização da economia (o neoliberalismo). Freud atribuía à economia um lugar ao lado das forças do RECALCAMENTO DA SEXUALIDADE, ou seja, a limitação econômica era uma espécie de regime ditatorial que impedia por questões de ordem material a satisfação de necessidades fundamentais como alimento e sexo. Mas agora a coisa está de modo diferente, eu quero dizer que na realidade atual, voltada para o consumismo, a economia se faz presente junto ao psiquismo não mais como um princípio de limitação do prazer, uma pedra no meio do caminho para Tebas; a dimensão econômica, hoje, é um modo de produção de comportamentos; dentro do neoliberalismo, a cultura adquiriu a função de meio de produção de comportamento de consumo e isto não poupa o âmbito médico, por isso que sintomas como a impotência sexual e a depressão vivem na crista da onda, e isto se deve ao desenvolvimento de uma psicofarmacologia eficaz ao longo das últimas décadas. Hoje, a depressão é ressignificada como uma doença meramente orgânica, deixou de ter relação com os acontecimentos, com a história do indivíduo. Esse indivíduo precisa ser transformado em consumidor, isto para o bem do mercado. A mídia atual possui uma verdadeira gramática da perversão de produção do consumo, haja vista aquele comercial de analgésicos que diz que dor é coisa séria, que ninguém precisa sentir dor. Impotência virou disfunção erétil na gramática perversa do mercado do VIAGRA.
Depois a gente continua.
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