Brasil dos descamisados,
Onze de junho de mil novecentos e noventa e cinco.
Sei que és sublime e indecente
Nas tuas etiquetas vida.
O teu influxo assina em baixo
O meu fracasso de não ter mais nada o que escrever,
E até as minhas necessidades fisiológicas
Já estão infra-assinadas na tua vida.
Não conheceste Virgílio
Nem as pastoras de Virgílio,
Mas cantas melhor que Virgílio.
Não precisas de pátria nem de guerras nem de heróis,
Ó tu que navegas na pena
Sem a pena de ser um desgraçado,
És espetacularmente o poeta,
E cantas melhor que Virgílio;
Longe de ti o sangue, o peito, o gesto humano vil,
Tens mais razões pra cantar que a vida,
Que o campo, a cidade e a lida.
__Canta ao pé do meu canto oscilante
Que sempre erra o meu futuro,
E eu nunca mudei de porto.
O meu oriente é__quando nada__
Acordar com medo de perder a família que não tenho.
Não. Eu nunca estive a bordo.
Nunca para além do mar,
Mas canto ao pé do mar,
Oscito todas as odes de teu canto,
Osculo todos os cantos que não sei cantar,
Porque eu nunca imergi em total profundidade,
E não conheço os segredo do mar.
Nunca fui veleiro náufrago,
Não escondo jóias raras,
E nenhuma mulher, aquém desse mar,
Tem o peito nublado pela minha partida.
Canto real... concreto... maracujá...
Não sei ouvir estrelas nem árvores,
Meu canto menor e humano não vai à lua,
Fica com as crianças, meretrizes e mendigos,
É da mansarda que desejarem,
Suja as ruas e é um opróbrio social.
Sem residência fixa, meu canto desempregado
Está na mira da polícia.
Mergulho de cabeça no canto das putas do passeio-público,
Sensação de cabeças mal-amadas,
Crianças mal-acordadas antes do sol nascer.
Meu canto fede, ferve, fere
Os ouvidos finos, hipócritas
Dos que rolam as pedras e negam o meu canto.
Gigante pela própria natureza,
Civilizado, enfileirado, patriota,
Meu canto arrota por convenção
Para dizer que não falei das flores.
Meu canto é o seu endereço,
A sua família, o seu credo,
O seu fim de semana;
O quarto do seu pai que já morreu,
E o conservam intacto
Como a não quererem saber que já morreu.
A roupa mais nova que você usa,
A palavra mais nova que você aprendeu,
Seus barbitúricos e cacoetes,
A sua cultura de bolso, gestual,
Você, você e você,
Mistério de pedras do altar da minha divindade,
Dedões que me apontam não faça isso, não faça aquilo,
(E verás que um filho teu não foge à luta.)
Meu responsável consangüíneo,
Desapaixonadamente por mim,
Executa-me todas as manhãs
Só para o meu próprio bem.
Paleozóico, anfíbio, o meu canto de amor e ódio
Esbarra na paisagem do meu mundo
Que não se adapta ao meu continente;
Refluxo de dentro de mim em busca de mim,
Sentido leve, e me machuca,
E não tem forma, e não existe, é virtual
Dentro de mim o meu canto profuso
Que faz pensar que eu existo.
VITRAL: Poesias
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