sexta-feira, 22 de agosto de 2008

NADJA E OUTROS SONETOS

H I P E R C A T E X I A



Deixa que eu seja o teu papel carbono,
O teu material de expediente;
Uma receita azul de entorpecente,
Os olhos-de-retrós do teu arcano.


Deixa que eu seja o rato da gaveta,
Roendo as entrepernas do soalho.
Eu seja o teu coringa do baralho,
Desejo pesquisado na proveta.



A transfusão do sangue no calcário,
O feto que se forma no cenário,
O nosso mecanismo de defesa.


Completa a simbiose do nirvana,
Pisa sem dó a caixa craniana,
Em contraposição à natureza.









M U S A D O V I T R A L



Na luz evanescente da capela,
Pastora do vitral assim me vejo
Sentir o doce sacro do teu beijo,
Desejo pelo qual minh’alma vela.


Ora me vens, com força, dilacera
A juventude rude do meu tempo.
Aprendo no desterro do convento
Os olhos da lição, tua quimera.


Existirmos apenas na fumaça
Do passado, relíquia pela graça
Da memória de longa duração,


Eterniza o império dos sentidos
Debaixo dos lenções, subentendidos,
Os gemidos do amor e da paixão.










A L F A S E I S



Sonhar somente amor por toda vida,
Desejo-luz do bardo sonhador.
Pesa-lhe a cruz o peso dessa dor
No tempo hoje, quão pesada lida.


No terra a terra rala o coração,
Sabendo a lira ser, atualmente,
Como que algo próprio de doente,
Mentecapto, longe da razão.


Sonhar, sonhar o sonho dos sensíveis,
Sonho em extinção dos invisíveis
Erguedores da pedra emocional.


Sentir o asco da vida presente
Vomita o verbo quem o verbo sente
Dentro de si a arte magistral.










ORGULHO NERVOSISMO INDIFERENÇA



Orgulho, nervosismo, indiferença.
Sentimentos opacos destrutivos
Da beleza dos sonhos comovidos,
Orgulho, nervosismo, indiferença.


Urticária venal, flores de brasa,
Inimigas da paz ambiental;
Cinerário ambulante funeral,
Orgulho, nervosismo, indiferença.


Perde o fôlego, dentro, o coração,
A beber desse hostil fel de paixão,
Orgulho, nervosismo, indiferença...


A vergôntea do bem se enverga ao mal
No fogo da paixão descomunal,
Orgulho, nervosismo, indiferença.










A L F A Q U A T R O



Saborear o riso natural,
Algo de novo então desconhecido;
O êxtase de ficar horas perdido
No suave recôncavo da cama.


De repente sentir no coração
O cântaro do amor se derramar;
Em mar agitação de se sonhar,
Do fragrante das flores, a visão.


O sono se remora quando desce
O claro no vitral fazendo prece,
O fio de tecer nova manhã.


A frágua da nascente se apodera
Dos carros coloridos da quimera.
_ Abram alas à dor: Começa o dia!










P R O F A N O



Sabedor do que vai dentro de mim,
Este amor há em mim e dimensiona
O meu ser que de vago já questiona
Quão pesar se me acena do meu fim.


Este amor que de ti me faz profano,
Faz cegar toda fé da minha infância;
Faz ficar o meu credo na distância
Do êxtase do prazer ao desengano.


Nada mais do que eu faça faz sentido
Esse tempo, a saber que nos meus idos
Fiz bem mais pela minha salvação.


Neste amor fica enfim tão separado
Da verdade o destino ora sonhado,
Tão contrária à virtude é a paixão.










B A R B Á R I E



A guerra é o meio, que, do Ocidente,
De cujas leis deriva e justifica
O simbólico touro da Guernica
No campo de batalha, indiferente.



A laranja mecânica coaduna
Ao fruto de tal bomba inteligente,
A rosa de Hiroshima, amargamente,
Os mísseis em diáspora, a lacuna.


Objeto da vontade, planejara
Os meios da barbárie que fadara
Como um fim em si mesmo, pois encerra


A natureza humana corrompida,
O preço que se paga pela vida
Para o reino dos fins a lei da guerra.









N A D J A



Nadja, espuma o olhar lasso, incandescente,
No centro do meu horto, a fantasia:
Libera no meu corpo essa energia
Difusa no teu corpo fluorescente.


Nadja, energia absorta que me aquece,
Amanhece a beleza do meu sonho:
A pérola-desejo que componho
Se alcançar a beleza se consente.


Nadja que salta aos olhos o usuário,
Amor convencional, o prontuário,
Às exceções de quem se locupleta...


Nadja que na Via Crucis o cristal
Delineia o sagrado no vitral,
A beleza barroca dos estetas.

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