I D O L A T R I A D O M E R C A D O
Eis o meu histórico infame no cadastro,
Opróbrio social, vivo de fora
Da providencial mão que vigora
Nas peças simuladas desse lastro.
Eis o resto, eis a raspa, eis o martelo
De cravar minha culpa na pobreza:
Enterrou-se o desejo, a natureza,
Na rocha imperativa eu me esfarelo.
Ruge dentro de mim a vossa capa
De burguês econômico que rapa
O nexo corporal eterizado...
Na pós-modernidade do fascismo,
Os conceitos antigos do utopismo,
_ A férrea idolatria do mercado.
Helder Alexandre Ferreira
V I T R A L : Poesias
O A M O R S E B A S T A
Amor é como rabo de lagarto,
Mexendo pertinaz em separado
Do lagarto que fica decepado,
A calda de per si independente...
Que remexidamente, sobremodo,
Amor existe fora do chamado
Seleto eleito amor bem-comportado,
Amor existe fora da política.
Amor é construir a vida humana
Porque foi dada a força soberana,
Amor e violência e paz e guerra...
Que todo amor arrosta, pois enterra
Toda a filosofia que se encerra
Porque foi dado amar sem metafísica.
Helder Alexandre Ferreira
V I T R A L : Poesias
P L E N I L Ú N I O
Eu tenho a boca roxa de beijar-te,
As minhas sobrancelhas sabem disto;
Os olhos se me escondem no benquisto
Plenilúnio da hora de sonhar-te.
As flores taciturnas dos escampos,
As frondes que este dia descortina
Nos campos, clorofila, cromatina,
As cores da saudade neste encarte...
De sonhos-sete palmos desta terra,
Dormindo minha paz e minha guerra
Nas cinzas do futuro do meu fado.
Oferta de luar, toda querença
Festiva de sonhar tua presença
No fogo abrasador do seio amado.
Helder Alexandre Ferreiura
V I T R A L : Poesias
C O R P O E A L M A
No teu corpo farei o meu poema;
No céu da tua boca o solavanco;
A página do céu está em branco,
Tatuagem celeste, o diadema.
Explode coração no desencanto,
No peito sinto o tranco do fonema;
Os versos cometidos no poema
Do teu corpo, matéria transitória.
O mundo obliterado na memória
Escreve no vazio a minha história,
A glória de existir este meu canto...
Do céu da tua boca, este poema
Adentra a solidão da minha pena
E a noite em desencanto toma corpo.
Helder Alexandre Ferreira
V I T R A L : Poesias
ESCADA DOS AZARADOS
II
Cale-se a dialética burguesa,
Hermética magreza, vicinais
Dos altares glutões, os comensais
Da base filosófica cretina.
Porque nas ancas são abomináveis:
Obliterar Platão e seus embrulhos,
Cortar pela raiz os seus bagulhos,
Os entulhos morais vomitarão...
O rol dessa beleza fetichismo,
Ideário burguês, esse fascismo,
Nos degraus das escadas de Platão
Se revela no curso dessa história,
De cima para baixo toda a escória,
A ordem natural destinação.
Helder Alexandre Ferreira
V I T R A L : Poesias
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