sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Idolatria do Mercado e outros sonetos

I D O L A T R I A D O M E R C A D O


Eis o meu histórico infame no cadastro,
Opróbrio social, vivo de fora
Da providencial mão que vigora
Nas peças simuladas desse lastro.


Eis o resto, eis a raspa, eis o martelo
De cravar minha culpa na pobreza:
Enterrou-se o desejo, a natureza,
Na rocha imperativa eu me esfarelo.


Ruge dentro de mim a vossa capa
De burguês econômico que rapa
O nexo corporal eterizado...


Na pós-modernidade do fascismo,
Os conceitos antigos do utopismo,
_ A férrea idolatria do mercado.



Helder Alexandre Ferreira
V I T R A L : Poesias







O A M O R S E B A S T A


Amor é como rabo de lagarto,
Mexendo pertinaz em separado
Do lagarto que fica decepado,
A calda de per si independente...


Que remexidamente, sobremodo,
Amor existe fora do chamado
Seleto eleito amor bem-comportado,
Amor existe fora da política.


Amor é construir a vida humana
Porque foi dada a força soberana,
Amor e violência e paz e guerra...


Que todo amor arrosta, pois enterra
Toda a filosofia que se encerra
Porque foi dado amar sem metafísica.



Helder Alexandre Ferreira
V I T R A L : Poesias








P L E N I L Ú N I O


Eu tenho a boca roxa de beijar-te,
As minhas sobrancelhas sabem disto;
Os olhos se me escondem no benquisto
Plenilúnio da hora de sonhar-te.


As flores taciturnas dos escampos,
As frondes que este dia descortina
Nos campos, clorofila, cromatina,
As cores da saudade neste encarte...


De sonhos-sete palmos desta terra,
Dormindo minha paz e minha guerra
Nas cinzas do futuro do meu fado.


Oferta de luar, toda querença
Festiva de sonhar tua presença
No fogo abrasador do seio amado.



Helder Alexandre Ferreiura
V I T R A L : Poesias








C O R P O E A L M A


No teu corpo farei o meu poema;
No céu da tua boca o solavanco;
A página do céu está em branco,
Tatuagem celeste, o diadema.


Explode coração no desencanto,
No peito sinto o tranco do fonema;
Os versos cometidos no poema
Do teu corpo, matéria transitória.


O mundo obliterado na memória
Escreve no vazio a minha história,
A glória de existir este meu canto...


Do céu da tua boca, este poema
Adentra a solidão da minha pena
E a noite em desencanto toma corpo.



Helder Alexandre Ferreira
V I T R A L : Poesias








ESCADA DOS AZARADOS


II


Cale-se a dialética burguesa,
Hermética magreza, vicinais
Dos altares glutões, os comensais
Da base filosófica cretina.


Porque nas ancas são abomináveis:
Obliterar Platão e seus embrulhos,
Cortar pela raiz os seus bagulhos,
Os entulhos morais vomitarão...


O rol dessa beleza fetichismo,
Ideário burguês, esse fascismo,
Nos degraus das escadas de Platão


Se revela no curso dessa história,
De cima para baixo toda a escória,
A ordem natural destinação.



Helder Alexandre Ferreira
V I T R A L : Poesias

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