segunda-feira, 25 de agosto de 2008

A FOGUEIRA DE GISELDA MEDEIROS


Hoje eu gostaria de falar com vocês da relação da necessidade com a satisfação, e para isto nada como a ficção de Giselda Medeiros. A fantasia, essa trama subjacente ao mundo da realidade, não pode atender, por exemplo, à necessidade da fome. Necessidade e satisfação implicam uma relação que existe e se pode sustentar apenas no nível da realização alucinada do desejo, a satisfação alucinatória do desejo do filho pela mãe. Giselda Medeiros investiga o inconsciente de Agnaldo [vamos chamá-lo de Agnaldo] ao personagem de A Fogueira. Aqui, Giselda, num procedimento de escavação, resgata o sujeito e sua construção psicótica. Na pessoa normal, a psicose é bem afortunada, em acordo com a experiência; já em Agnaldo está tudo cinza, o homem quer pôr fogo em tudo, inclusive nele mesmo. E nós o encentramos ali, estático e extático, diante de seu mundo cinzento. Essa atitude, esse caráter destrutivo de Agnaldo, carcomido, angustiado, os olhos refletindo o brilho da fogueira, o que não passa de um reflexo de suas pulsões fundamentais, esse masoquismo nós o encontramos também em Paulo Honório, personagem do romance São Bernardo, de Graciliano Ramos. Vê-se bem que Giselda Medeiros começa a sua análise podo lenha, muita lenha na fogueira. Agnaldo. Era sempre assim nos finais de semana. “Quem me olharia com a fortaleza da felicidade? Quem me fitaria sem deitar em mim a aflição de gestos piedosos?... Revi mamãe e papai, chapéu de palha, enxada, rumo ao roçado. Droga de vida!”
Posto que a psicanálise não seja a sua praia, Giselda não seja uma freudiana confesso, as suas escavações têm como lugar epistemológico o fenômeno psíquico, e essa letra forte nós a encontramos também em Clarice Lispector. A propósito, um grande crítico da literatura russa disse que não fosse a visão introspectiva de Dostoievski e Crime e Castigo seria apenas mais um romance policial entre os demais.
Em A Fogueira, Giselda põe à baila Agnaldo, um rapaz que tem uma relação profunda e perpétua com a mãe; sua realidade fundamental manifesta-se edificada e sustentada pela satisfação alucinatória e fantasística de sua relação com o objeto materno. Sua mãe cumpre uma função diretiva e eminente, trocando em miúdos, Agnaldo é filho de uma mãe que dá mais atenção ao filho do que ao marido; uma mãe superprotetora, e isto, Giselda faz perceber a partir da construção imagética onírica do personagem que sonha com uma dama no comando da ágape. “Tinha nos olhos um ar de suavidade, apesar dos ares de dominadora. Seus gestos firmes exigiam de todos o respeito e a submissão”. É um sonho bastante sintomático. Este sonho é a chave, o ponto axial onde se encontram as respostas das seguintes perguntas: Por que Agnaldo não consegue organizar sua vida, firmar-se num emprego, ganhar dinheiro par ajudar aos pais? Em que mundo vive Agnaldo? Qual é a realidade individual que está diante dos olhos de Agnaldo? A relação primordial do filho com a mãe constitui a primeira experiência do sujeito, o sujeito e o seu Outro da relação especular, a fase do espelho, que vai constituir para o bebê a ilusão de onipotência. Ele, sua majestade o bebê é o senhor da mãe; ainda não entrou a interdição paterna, o Nome-do-pai para inaugurar a lei de proibição da mãe. Quando nessa relação triangular, o pai é um marido castrado pela mulher, (barriga branca), ou um pai demasiado amoroso em relação ao filho, esse pai que é o ideal do eu do filho não exerce com êxito a castração, que é de suma importância para a dissolução do Complexo de Édipo. A mãe é a intermediadora da proibição do pai; agora, quando a mãe é valente, e o marido fala fino, aí o Édipo vai ter para quem apelar. É para a mãe. O filho, principalmente o rapaz, desenvolverá um relacionamento eterno e de profundo respeito e amizade com a mãe. Ele se torna incapaz de viver longe da mãe, e até para resolver se toma chá ou café, no intervalo do trabalho, liga para a mamãe.
Se fizermos uma acareação, pormos um defronte do outro, Paulo Honório de Graciliano Ramos, São Bernardo, e Agnaldo de Giselda Medeiros, Sob Eros e Thanatos, apreenderemos isto: Agnaldo é o negativo de Paulo Honório, este sendo a perversão da necessidade sexual, e essa coisa tem seus objetivos em separado do sujeito como já falou o senhor Schopenhauer: O homem não está submetido à mulher (o amor é uma ilusão boba), o homem cumpre apenas as ordens do gênio da espécie, que é a força soberana de viver, ou seja, o instinto de perpetuação da espécie, através da relação intersexual. É perversão porque é natural. É a lei da natureza. Paulo Honório maltrata tanto aquela professorinha. Coitada! Parece a moça que gosta de ser chicoteada. Que sorte grosseira a daquela jovem professora! Pois bem. Paulo Honório é a pura perversão, enquanto que Agnaldo é a pulsão. O que seria perversão em Agnaldo se transformou, se modificou, se desenvolveu, se sublimou e se enriqueceu pelo poder de plasticidade das pulsões que não têm objeto específico, a sexualidade humana não tem por fim a perpetuação da espécie, isto é apenas apoio biológico assim com o ato de mamar não tem por finalidade alimentar (isto é o apoio biológico da coisa), o que a criança busca é o prazer, a satisfação, e tal satisfação é sempre uma satisfação alucinatória. Á pergunta em que mundo vive Agnaldo, podemos responder que ele vive no mundo do útero materno, no para além do princípio de prazer, e sua organização genital sofreu a castração da mãe, e o seu Édipo é invertido. Ele se identifica com a mãe. Trata-se de um homossexual angustiado pela ausência da mãe. Decerto que ele, mais dia menos dia, substituirá, preencherá o vazio da mãe, pondo no lugar um objeto idêntico ao objeto do desejo da mãe, e o objeto do desejo da mãe é uma parte do corpo do pai, portanto a homossexualidade masculina não é somente um fenômeno sociológico, mas sim um fenômeno psíquico. Mas chega de Agnaldo. Fiquemos por aqui.



Helder Alexandre Ferreira
Filósofo da Mente

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