sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Explicação do texto Motivos de Giselda Medeiros

O lirismo passional, arrebatado em Giselda Medeiros antecipa a alegria e a tristeza de Motivos, esse metapoema magistral, onde um mas se interpõe __ para sempre __ na imaginação, essa senhora de erro e de falsidade, que enche os sonhos e embriaga de prazer. As paixões da alma (alegria, tristeza, anseio, carência, desejo) condensadas na locução interjetiva “Ah, quem me dera, poeta, constituem um complexo estimulante; e a insistência do mas que passa no e pelo inconsciente, desloca a imaginação para uma meta específica, antecipatória de conseqüências estimulantes: a poetisa, grávida de sonhos e bêbada de encanto, realiza o desejo alucinado de ser aquela que conversa com o poeta, seu tresloucado amigo. Mas quem é esse poeta? Comecemos pelo começo onde o ah, quem me dera desprende toda a eletricidade gerada na palavra poeta que é o trono da expressão interjetiva. Poeta, no texto, é uma palavra investida com uma carga de afeto e pode significar algo mais do que a letra produz, supõe um deslocamento (metonímia) pelo qual poeta designa a própria poesia em seu espaço de conhecimento e de experiência; poeta é o outro do simbólico, a outra cena, o rio mais bonito que corre dentro da poetisa, mas que não é o rio que corre dentro da poetisa, posto que a poetisa é rio dela mesma, e o rio (poeta) celebra outra cena, outros mares. A relação do rio com o outro rio é a relação do ser e do não-ser da poetisa, lírico reflexo dos murmúrios de sua alma cujo mas interceptante é esse barco de espantos que a imaginação antecipa; o mas é a Coisa a quem a poetisa doa seu rio e tal Coisa barra o caminho das águas; a poetisa se dá ao mas inevitável da imaginação. O mas é a causação do tudo e do nada,não obstante seja apenas uma gota no pulso de um lento e longo rio.

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