No lugar da casa de Germana havia edifícios de apartamentos. Em um dos apartamentos, na sacada, uma porção de estranhos conversando. Um rapaz moreno-claro, que usava óculos, contemplava da janela as pessoas que ficavam lá embaixo. Esse rapaz morava num condomínio cuja arquitetura super-realista, Niemayer, lembrava uma barriga de mulher grávida. O prédio em que ele morava era bojudo, com uma protuberância em forma de umbigo. O edifício mexia a barriga, lá do alto; as nuvens de verão passavam em turma; havia claridade e exuberância cromática nas paredes recém-pintadas. O sol estava a pino, eu podia sentir o meu corpo aquecer, e aquele umbigo, lá no alto, era a coisa que mais me impressionava_ espetáculo mais grandioso_ os meus olhos circunvagavam em volta daquele lugar, da casa de Germana, mas um olhar alucinado, intenso, ameaçava demoli-la... Era o edifício bojudo lá do alto, eu podia até sentir as dores do parto, o sol estava a pino, toda aquela claridade chamava a atenção. Mais para o lado, no canto, acontecia uma reunião literária, e eis que me vejo ali, circunvagando em volta de uma porção de estranhos. Não vi quem presidia o conclave, nem havia muitas pessoas dispersas como sói acontecer nessas assembléias, quando as pessoas se excedem em gabolices inoportunas. Aquela era a plêiade de Alexandre Rolim, e, ei-lo, chegando, satisfeito consigo mesmo, rosto agradável, neutro, homenzarrão de altura e peso normais. Pude vê-lo de costas, quando ele se dirigia à tribuna do Templo para saber algo do palestrante. Alexandre (algo me chamou a atenção) o seu pescoço, a nuca, mais especificamente, o cangote. É que no cangote tinha algo irritado, vermelho e côncavo. Espetáculo deprimente, aquele homem alto, magro, louro e de fala pausada, tinha o umbigo na nuca, e a nuca flácida, de uma cor espantada, rosa-choque. Foi a segunda coisa que mais me impressionou depois do edifício Niemayer que lembrava uma barriga de mulher grávida.
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Helder Alexandre Ferreira
30/05/2008
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