segunda-feira, 25 de agosto de 2008

COMPORTAMENTO

Os tempos mudaram, a sociedade tem sofrido mudanças em todas as dimensões, a mulher conquistou sua emancipação, e a família tradicional está em fase falimentar, os filhos já questionam os pais. Esse modo atual das relações parentais, do filho que diz: Meu pai, o senhor está por fora... Ou da filha que rechaça o conservadorismo e “ fica” com um par e engravida, tudo isso poderia caracterizar insanidade dentro dos critérios que estabelecem o conceito de “ normal”. Os padrões culturais é que vão aprovar ou desaprovar a conduta de uma pessoa. Quando usamos a expressão normal dentro de um padrão fixo de atuação, estamos qualificando determinada conduta. Normal é o comportamento manietado, em acordo com a maioria. As massas têm um comportamento algo submisso, induzido. As pessoas pensam igual e falam as mesmas coisas todos os dias, na faculdade, no lazer, os assuntos são futebol, religião e violência. É como se outra cabeça nos governasse. A meu ver, normal é aquela pessoa que é ela mesma, que não caiu na vala comum da mente coletiva; comportamento normal é reflexo da consciência individual, o que caracteriza o caráter. Os apelos e imposições da mídia seqüestraram as capacidades cognitivas, os seres humanos ficaram estúpidos, não pensam, a televisão, o Galvão Bueno, a Sinhá Moça, a Xuxa, todo esse povo é que molda o comportamento do brasileiro e da brasileira. Quem resistir é segregado e rotulado de anormal, neurótico, psicótico ou coisa que o valha. Penso que o comportamento anormal de uma pessoa não deve ser jogado na vala comum da doença. O comportamento de uma pessoa reflete a sua vida. Uma vida marcada por perdas e danos cria atalhos, desvios na caminhada, outras maneiras e estratégias para fazer compensar as dificuldades e transpor as pedras do caminho. As pessoas são motivadas por idealizações, e, para isto reprimem desejos momentâneos. São esses desejos reprimidos em nome da realização pessoal, que marcam o passo durante a caminhada. Cada um carrega a própria bagagem; alguns sentem desconforto quando a bagagem é uma mala grande, pesada e sem alça, e necessitam de ajuda para suportar o peso da realidade. É aí que surge o Simão cirineu para ajudar a carregar o instrumento de suplício: Em circunstâncias de conflito, a conduta de uma pessoa entra em acordo com os carrascos (desejos inconscientes) e tais soldados se deslocam e assumem o papel de Simão cirineu, preservando o pobre servo de um peso insuportável (a realidade). O comportamento de uma pessoa que vive uma realidade insustentável é uma conduta de pura sobrevivência e jamais se deve levar para o lado clínico o sofrimento manifesto, conseqüência de problemas da vida.
Os programas de rádio têm falado muito sobre comportamento. O comportamento só se transforma em matéria quando desperta interesse, e só desperta interesse se for um comportamento “ anormal”. Anormal é o comportamento perturbado. No programa do Carlos Augusto tem a pesquisa do dia, geralmente, sobre sexualidade. Os ouvintes ligam e falam de infidelidade, sexo antes do casamento, relação extraconjugal, etc. Em seu comentário, Tom Barros explica a depressão como sendo fraqueza de espírito, falta de Deus; já para os impulsos de natureza sexual, o discurso adota as vestes modernas da complacência, afinal a carne é fraca, impossível é não pular a cerca, isso é moderno! O rádio hoje é um supermercado, de há muito que a maior parte dos comunicadores foram seqüestrados pela teoria de mercado. Hoje não existe mais o radialista, mas sim o propagandista, aquele que no passado gritava nas calçadas das lojas é o que hoje tagarela ao microfone, o microfone perdeu a sua dignidade. Quem inaugurou a televisão-supermercado foi o Sílvio Santos com o seu bendito baú da felicidade. Mas voltemos à mídia local: Rotula-se o comportamento “ anormal” como sendo loucura, os loucos são doentes irrecuperáveis, não merecem atenção e devemos manter distância deles, que podem matar e não vão presos. Deveriam estar internados, banidos da sociedade, lugar de doido é no hospício! Claro. Os “ doidos” não dão lucro; a devassidão é a nossa principal mercadoria. O mercado vive da prostituição e da violência, os dois artigos de luxo que a mídia vende a torto e a direito. Os homens têm vergonha de serem honestos, e o que fazem não é política, é imoralidade!
Voltando ao rádio, vimos que o enfoque leigo é de cima para baixo, isto é, o comentarista fica do lado da maioria considerada “normal”. Para o representante dos interesses de mercado, a pessoa desajustada é a única culpada pelo seu desajuste, o mundo não tem culpa, a sociedade não tem culpa, o governo menos ainda. O louco ou deprimido é que é fraco ou muito ruim. Infelizmente, pessoas que desconhecem totalmente os fatores motivacionais do desenvolvimento humano vivem tagarelando sobre doenças mentais, e acabam por distorcer conceitos, prestando um desserviço à comunidade dos ouvintes de rádio.




Helder Alxandre Ferreira
13/09/2006

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