segunda-feira, 18 de agosto de 2008

ANOS DOURADOS EM OTÁVIO BONFIM

O AMBIENTALISMO EM VICENTE MORAES



A saudade é inarredicável por ser o registro de uma felicidade, e o passado é a nossa unidade e identidade social. Estas páginas falam de um sentimento verdadeiro. O entusiasmo militante de Vicente Moraes, que, a pretexto de Frei Teodoro, precipitou esta invenção cultural. Anos dourados em Otávio Bonfim conta a saga de um homem que soube conduzir com paciência e altivez, e acima de tudo, com dignidade os seus fiéis seguidores, com o mesmo zelo e afeição dedicados por um pastor na condução de suas ovelhas. Como instituição de manipulação do comportamento, a igreja modela o caráter para produzir uma conduta desejável.
O tempo é a década dos anos de 1950, em plena quintessência da experiência burguesa, fascistoide do Estado Novo getuliano, que se apossou das mentes de muitas pessoas formadoras de opinião, muito embora tais celebridades não fossem adeptas da ideologia demagogo-populista de Getúlio Vargas, tinham-no em grande apreço, e famosos artistas como a cantora Emilinha Borba rendiam preito àquele que foi o primeiro dos presidentes bossa-nova. O pai dos pobres, que também era a mãe dos ricos, passou para Juscelino (o bossa-nova) o narcisismo-explorador pertinente aos ditadores que trazem no âmago a necessidade existencial de serem aceitos e amados pelo povo. As necessidades existenciais do Estado Novo despertam paixões naqueles que não se acham diretamente como partícipes da política de dominação. Um exemplo ótimo é o da juventude irreverente, característica da cearensidade tão bem representada pelo poeta Edgar de Alencar na imagem do bem-te-vi canalha que xinga os retirantes. O clima rebelde, passional, intra-específico do entusiasmo militante da juventude franciscana de Otávio Bonfim escreveu um dos mais predominantes traços de felicidade de uma parte de nossa bela Fortaleza.
O estilo de Vicente Moraes, em sua execução ao nível jornalístico, carece de ferramentas que dê ao livro o status de obra de arte literária. Anos dourados em Otávio Bonfim não é um labor de esteta (invenção cultural), mas uma invenção puramente física onde o livro (como simples objeto) possibilita a recuperação de muitas emoções vividas entre amigos, emoções que continuam vivas na alma, portanto as palavras de Vicente Moraes são palavras do coração. O livro não desfruta do convívio com as musas, as palavras não formam uma bela frase, mas longe de nós querermos dizer que uma obra tão impregnada de sentimento altruísta esteja nua de poesia, e que Moraes seja um escriba cartorial. O ambientalismo em Vicente Moraes tem como matéria exclusiva o comportamento manifesto elementar da juventude sapeca de Otávio Bonfim nos tempos da brilhantina. As brincadeiras e briguinhas são contadas, ou melhor, são registradas objetivamente a guisa de informação. A atitude quase-religiosa desse autor quase-jornalista revela, no contexto de Anos dourados, a necessidade do homem de não se sentir perdido e isolado, portanto o homem toma uma atitude diante do crescimento econômico e da especulação imobiliária, que devastaram a beleza de outrora de quando as pessoas conversavam com cadeiras na calçada e as crianças desfrutavam de áreas verdes para brincar e correr; diante de um sistema de produção de mercadorias que afronta todo o equilíbrio do planeta e que faz do céu do progresso o seu limite, o que o autor afirma é que o céu do progresso é o inferno do homem cibernético da comunidade virtual dos internautas neuróticos, mundo moderno, agressivo, liberado em todos os sentidos, distante daquele de Frei Teodoro (representante de Deus) que se preocupava com cada um e com todos ao mesmo tempo.
Em suas memórias, Vicente Moraes manifesta grande otimismo, traço maior de sua personalidade, otimismo implícito ao sustentar em favor das brincadeiras e briguinhas. Porque não havia nada que desabonasse. As brigas aconteciam fora dos domínios conventuais, porque eram peraltices, brigas de rua; os duelos com espadas ou caroços de carrapateira, a experiência com o álcool e as necessidades fortuitas de relação sexual, enfim, a adolescência dos membros do clube do Bolinha __no contexto da obra__ a turma do Vicente (Patesco), constituída de peraltas do bairro que transportavam para as ruas as películas do cinema (Zorro e os duelos de caubóis). A agressão das telas de cinema tem sua função completamente esquecida e ganha um novo objetivo, que é o exercício de uma habilidade, uma versão lúdica, encenada nas brincadeiras e briguinhas, versão essa compartilhada com uma outra arte, na aparência tão completamente diversa como a cerimônia da Santa Missa (a luta do Bem contra o Mal). As brincadeiras e briguinhas sofrem a influência de Frei Teodoro, e essa estrutura faz a energia de resistência do autor estabelecer a censura do discurso, impossibilitando uma investigação analítica de sua obra. Vicente tem como matéria exclusiva o comportamento (o sujeito), mas é o predicado (a motivação) que explica o comportamento do sujeito, portanto não podemos advogar em favor de uma investigação analítica, dada a resistência do autor em não se expor como é de práxis aos poetas escritores.


Helder Alexandre Ferreira
Análise-crítica de Anos Dourados em Otávio Bonfim, obra de Vicente de Paula Falcão Moraes.

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