sábado, 12 de julho de 2014

GALINHA CHEIA



     Aconteceu no tempo em que as pessoas conversavam de cadeiras na calçada. Todas às noites nosso pai conversava a bom recado, felicidade barata, ao sabor das calçadas e da branca e merencórea lua. Havia o lirismo das calçadas, a gente humilde com cadeiras na calçada, havia amizade verdadeira. Nosso pai conversava do outro lado da rua; lá, ele era amigo do seu Geraldo; do outro lado da rua também o nosso irmão Walder era amigo do Jorge; era do outro lado da rua que se conversava uma e outra coisa. Na bodega da dona Alice, com o balcão permeio, a vizinhança comprava na pendura, o crédito era aprovado, todos tinham a sua caderneta, tudo era divino, tudo era maravilhoso. Entre nosso pai e seu Geraldo existia muita solidariedade humana; e vai senão quando resolvem dar uma galinha cheia, para o natal de 1965. Estou vendo nosso pai e seu amigo, Geraldo, indo comprar os ovos para o enchimento da galinha, tudo isso sob o olhar interrogativo e suspeitoso de nossa mãe. Estou sentindo o cheiro da galinha assando no fogão da nossa casa. De quando em quando, Lídia, a filha do seu Geraldo vinha ver se a galinha já estava pronta. Nossa mãe dizia que não era pra levar a galinha, que a galinha não estava pronta. Estou vendo nosso pai e seu Geraldo, fumando, bebendo e conversando na calçada; Lídia diz que a galinha não está pronta, e a mulher do Geraldo sorrir. Se chamava Liduína, uma mulher travessa e patusca, todos os sábados era ela quem mandava chamar nosso pai para jogar baralho; e, quando Lídia chegava à nossa porta, nossa mãe, dizia com sequidão: A filha do Geraldo veio-te chamar. Nisto, nosso pai levantava da sesta, impregnava os cabelos de brilhantina, penteava-os para trás, consultava a carteira, separava um conto de reis para a nossa merenda e descambava para a casa do Geraldo. Sábado, duas horas da tarde, é sempre neste dia, a mesma hora e mesmo minuto que a filha do Geraldo vem chamar nosso pai para fumar, beber, conversar e jogar baralho. Solidariedade humana, solidariedade do aborrecimento, ó sexto dia da criação, deverias ter sido riscado do livro das origens! Nossa mãe instava muito que ele não fosse jogar; no entanto era impossível segurar as rédeas do vício, alguns corcovos e o cavalo brabo da paixão sacudia-o da cama para a mesa do jogo na casa do Geraldo. Galinha cheia era um modo de preparar galinha com recheio, enchia-se a galinha com ovos cozidos descascados, linguiça, carne de porco, legumes etc. Estou sentindo o cheiro do petisco assando no forno do nosso fogão, enquanto nosso pai, do outro lado da rua, na calçada, em derredor de uma mesa preta, fumando, discutindo e conversando. Eu me lembro que a nossa irmã, Fátima abocanhou uma coxa da galinha; houve descontentamento e aglomeração na nossa porta; tonto da cerveja e no apogeu da fúria, nosso pai, abrindo o forno e puxando a bandeja dá com a falta de um pedaço da galinha, e logo uma sombria interjeição de medo vejo desenhar-se em nossa testa. Nosso pai lembrava Carlitos; passos trôpegos, naquela ânsia dionísica da cerveja, nosso pai cruzava a pista, banzeiro, guinando à direita e à esquerda, ao passo que de vez em quando olhava para trás, para nossa mãe, que três vezes a cabeça meneando, diante daquele tragicômico natal do ano de 1965.

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