A FUNÇÃO DO PENSAMENTO
Hoje eu gostaria de falar do pensamento. O pensamento é constituído dos elementos da função alfa, que é responsável pelo processo elaborativo do pensar. O aparelho de pensar tem uma dupla função: Sonhar durante o sono e, posteriormente, pensá-lo durante o estado de vigília, de tal modo que seja possível relembrá-los; a função alfa (pensamentos elaborativos) é a função reprodutiva do pensar. Para que alguém possa dormir... Talvez sonhar, faz-se necessário que ele possua uma função alfa capaz de processar (executar) suas impressões sensoriais. De forma a transformá-las em elementos alfa, que seriam usados na formação de processos mentais inconscientes durante os períodos de vigília, pensamentos oníricos (pensamentos do sonho) e recordações, lembranças, característica principal do pensamento elaborativo. Os elementos alfa, ao unirem-se entre si, formam uma barreira de contato que isola o consciente do inconsciente, estabelecendo uma passagem seletiva, ou seja, retendo informação. Se a função alfa é eficaz, o indivíduo pode discriminar entre estar dormindo e estar acordado, e então pode sonhar. As barreiras de contato (neurofisiologicamente falando) as trilhas neuronais seletoras da memória protegem o indivíduo contra os fenômenos mentais que poderiam sobrecarregar a consciência e, por outro lado, faz com que seja impossível que a consciência domine as fantasias. Protegem também o contato do indivíduo com a realidade, evitando sua distorção pelas emoções de origem interna. A função alfa do pensar equivale à percepção-consciência ou sistema perceptual, o sistema perceptivo de neurônios, os nossos radares ou nossas antenas, que nos mantêm em contato com o mundo externo. A função alfa, portanto, é a própria consciência, e essa consciência não é a mesma pretendida pela filosofia como sendo apenas o órgão dos sentidos. Segundo Freud, o a consciência é órgão para a percepção e entendimento da realidade tanto externa e interna. A consciência percebe a coisa-em-si, e a transforma em elementos alfa (pensamento elaborativo) os quais entram na construção dos processos mentais, todos os processos, conscientes e inconscientes. O grande psicólogo Emílio Mira y Lopez dizia que o pensamento era produto da necessidade, que o bebê começa a pensar a partir de impulsos básicos como fome, sede, frio, etc. O processo psíquico de pensamento não existe em separado do processo onírico, porque os sonhos são construídos de pensamentos que o indivíduo experiência na vida acordada. Os sonhos não fazem parte do sobrenatural. Quando sonhamos algo bizarro, absurdo; que estamos num bosque ou ao pé de um rio de águas claras; se virmos alguém de rosto congestionado ou dermos de cara com um quadrúpede nos oferecendo um chapéu, tudo isto faz parte dos pensamentos pré-conscientes, estes pensamentos existem do lado de fora da consciência, graças à função alfa do pensamento elaborativo, que, com suas barreiras de contato, não deixa que o aparelho de pensar se sobrecarregue.
Pensamentos evacuativos
O estudo da ação na transferência nos remete diretamente ao conceito de acing out. Tal expressão, originada na psicanálise de língua inglesa, deriva diretamente do “agir” freudiano. Mas guarda uma especificidade e certas ressonâncias de sentido que merecem ser retomadas: Out traduz um movimento de pôr para fora de si sentimentos e pensamentos, ou seja, refere-se a um expressar-se, enquanto o acting refere-se á maneira como se dá tal movimento expressivo através da ação e de comportamentos. Literalmente trata-se de expressar-se através da ação e de comportamentos, o que se mostra muito próximo da idéia de dramatização, ou seja, de uma representação teatral. A análise cuidadosa desta noção faz ver que o acento não se encontra no registro econômico de uma descarga pela ação, e sim no caráter simbólico de uma expressão pela ação. Como pensamento evacuativo, o acting out transforma os conteúdos psíquicos em ações simbólicas, convertendo as experiências e os restos diurnos em lembranças seletivamente armazenadas no inconsciente; o acting out funciona como uma compensação ante a ansiedade da separação, o vazio da perda, do luto, etc. O indivíduo, para preencher o vazio de objeto, busca um outro continente (geralmente alguém de seu ciclo social) e, nesse continente-analista, que também é o mundo externo, projeta a sua cólera, a sua fúria e a sua ira, buscando inconscientemente negar a realidade insustentável da perda por separação.
Quando disse que não sou a sua mãe para você ficar assim obstinada em silêncio como se eu fora a sombra de uma figura de horror, estou-lhe remetendo a condição de desamparo que lhe é constitutiva, mas sem condições de apelo ao Outro; você desapareceu ante o meu olhar, ficou rebaixada à condição de objeto, e isto tem incidido sobre a sua palavra, você não fala. Quem perde é o seu corpo, que depende da condição do falante válido, desfrutado pelo simbolismo da linguagem. O peso do corpo (a depressão) é o efeito do silêncio que não reconhece a existência da palavra, porque só conhece o real do corpo dessexualizado, o corpo autômato, sem alma, obstinado, em silêncio ante a canção de ninar. Quando digo que não sou a sua mãe para você ficar assim obstinada em silêncio, estou-lhe remetendo ao Duplo. Você está sentindo o pasmo de uma criança ao nascer. Perto de você, eu sou uma enorme sombra de horror, mas estranhamente familiar; você desaparece no universo do meu corpo; o seu corpo, agora, é similar ao meu, e em sendo assim, é capaz de falar enquanto Duplo. Você é o meu Duplo, Germana, (Ouça esta canção de ninar!...) O mutismo confere-lhe os atributos da bela e sem alma, e que também é protótipo das figuras do horror. É um horror não ouvir você, Germana!
Helder Alexandre Ferreira
Nenhum comentário:
Postar um comentário