sexta-feira, 22 de agosto de 2008

CONTRA-LIÇÃO



Deus me disse que devo à natureza
Um legado de dias infelizes:
Sou levado por mãos de meretrizes,
Orfandades da pátria mãe-gentil.



Há esterco na terra germinando
Essa flora, alma minha mãe gentil;
Diminuo pequeno, soberano,
Vendo a fome do povo do Brasil.


Interrompo o meu sono por um ano
No objeto do sonho que resiste
No canto do meu quarto escuro... triste...


Uterina, ilustrada, essa lição
É um berço real, comodidade,
Distinto do Brasil mendicidade.



Helder Alexandre Ferreira
V I T R A L: Poesias







A L F A S E T E



Que de sonhos sonhei quando criança!
Tantos foram que nem sei qual lembrar...
Pego o primeiro que essa brisa lança,
A pipa do menino o vento leva...


E agora segurando este cordão,
Me vejo novamente como outrora,
No asfalto, sol no rosto, pé no chão...
Do mundo, mas da vida tão de fora...


Meus sonhos, que eram feitos de papel,
Foram todos cair nalgum lugar
Muito além, muito além da minha rua...


E agora nada mais me leva ao céu,
Dado o peso de tudo que sofri
Nessa vida tão leve de ventura.



Helder Alexandre Ferreira
V I T R A L: Poesias






A L F A T R Ê S



Os sonhos _ via clara de quem mora
Nessa breve existência _ prefigura
Desejos amanhã, coisa futura,
A minha expectação na vida afora.


Paixão paradoxal que me devora
A alucinação de ser poeta:
Da pena do lirismo só me resta
A longa eternidade que me espera...


Quero a simplicidade desse frio,
À noite, no sereno, meu vazio,
A neve da lembrança nos vitrais.


Os passos indecisos no meu sonho
Decidem dispersar o meu rebanho,
_ E tenho pesadelos sensuais.



Helder Alexandre Ferreira
V I T R A L : Poesais






E N T R E A V I R T U D E E O V I R T U A L



Não à organização social
Abaixo o Confucionismo
Dou ao diabo a metafísica
Quero falar do meu umbigo


Crime de lesa-poesia
Mordo a língua de Luiz de Camões
Faço poesia beligerante
Faço guerra nas estrelas
Assassino a beleza


Quero fazer um comercial
Quero fazer injustiça
Quero fazer crueldade
_ Basta abrir a janela
E vereis as nádegas que uso
E tereis o livro em desuso
E ireis ao inferno de Dante


Quero falar do meu umbigo
Quero beijar o rosto de Judas
Quero brincar nos bigodes de Hítler
Ser penetrado pelo neoliberalismo
E num instinto fariseu
Jogar terra sobre as fezes do poema



Helder Alexandre Ferreira VITRAL: Poesias

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