terça-feira, 19 de agosto de 2008

Análise de um poema de Giselda Medeiros

Sou feita de luas e mistérios,
Tenho na alma a solidão dos rios.
As mãos eu tenho em posição de prece
E o olhar perdido nos caminhos.
Sou feita de estrelas e mistérios.
Sigo o caminho nômade dos astros.
Eu vou sozinha nesse espaço etéreo
Como volúvel estrela atrás do rastro
De um esplendente sol que nunca me esqueceu.
Moldou-me, entanto, a Poesia
A alma solitária e viandante
E pôs no meu caminho insólito
As cores de um diáfano arco-íris...
Assim eu vou de cor em cor,
Qual borboleta tonta, sem espaço,
Buscando achar na cor que se esfumaça
O brilho incomunal de um grande amor.


Giselda


Recorrendo aos verbos empregados no presente (sou, tenho e sigo) evocando associação, sucessão e repetição, a poetisa constata que sua alma é um rio, refletindo luas e mistérios. Esse “Tejo” é o rio mais lindo que corre dentro da poetisa, porque reflete sua alma, feita de luas e mistérios; e os verbos esqueceu-me, moldou-me e pôs expõem o pasmo dessa alma solitária e viandante. É o momento narrativo, o diálogo da alma consigo mesma, que, num livre jogo da imaginação, vai tocando as idéias, os sentimentos e o coração, portanto a poesia é um fenômeno humano, e como está na esfera humana, a felicidade e a inocência vai dos sentimentos espontâneos aos vícios primários, do orvalho à mancha suja de lama. “Jean Jacques Rousseau explica as infelicidades e os vícios do homem atual a partir do “Contrato Social”, esse instante infeliz que fez de um animal “ estúpido” e limitado um” ser inteligente e um homem”, ou seja, os homens adquiriram o hábito de se reunir diante da “ cabana” ou ao redor de grandes “ árvores”. A cabana aqui significa proteção, discriminação; os homens aprenderam a olhar e ser olhado e a estima pública passou a ter valor, e com a estima pública veio a corrupção do homem, que antes era ingênuo e feliz, com suas robustas fantasias; os homens não separavam o cosmo da terra, por isso a poesia antecede à prosa, os grandes monumentos literários foram todos escritos em verso. Nos poetas, a inocência está situada aquém do bem e do Mal, do vício e da virtude, porque todos esses atributos estão relacionados à socialização, e o poeta é insular por natureza; já a felicidade do poeta são frutos de vida e de verdade, sem a corrupção da sociedade política ou Cidade cujo signo palpável é a cabana, não ainda casa mas abrigo, enquanto a natureza poética constitui o ambiente normal de todos os homens do mundo criança e todos os homens do mundo criança foram sublimes poetas.

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